Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
20 de outubro de 2012
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UMA QUESTÃO DE COR



“Nenhuma cor é anodina, muito pelo contrário. Elas veículam códigos, tabus e preconceitos aos quais obedecemos sem perceber e possuem sentidos variados que influenciam profundamente o nosso entorno, nosso comportamento, nossa linguagem e nosso imaginário.” Quem fala assim é a escritora e ensaista Dominique Simonnet no prefácio de um livro-entrevista com o historiador e antropólogo Michel Pastoureau, autor entre muitos livros de “O pano do diabo”, “Preto, a Historia de uma Cor” e “As cores de nossas lembranças”.
Diz ainda que “as cores não são imutáveis” e que elas tem uma longa e atribulada história. Não é a toa que sorrimos amarelo, ficamos vermelhos de raiva, ou brancos de medo. Na Roma antiga olhos azuis eram sinal de desgraça. Numa mulher, sinal de inferioridade. Na idade média a noiva vestia vermelho. Era essa, no entanto, também a cor dos bordéis, associada à prostituição e ao perigo. É a cor que simboliza o poder e, de todas, a mais carregada de duplicidade. Pode ser a cor do fogo, de crimes e pecados, do comunismo chinês e também a cor cardinalícia. Para os protestantes a cor da inocente Chapeusinho seria imoral. O branco da neve, das geladeiras e das noivas, no ocidente, fala de pureza. Já no Japão esse papel vai ser prerrogativa do amarelo.
Foi no século 18 que o azul se tornou a cor xodó dos europeus. O famoso azul da Prussia foi inventado em 1720 por um farmacêutico em Berlim e facilitou a vida de pintores e tintureiros pois permitiu aumentar a gama de nuances escuras. Para além disso, a entrada maciça do indigo na Europa, proveniente da América Central e das Antilhas provocou uma verdadeira revolução pois a tintura chegou não só mais efetiva como mais barata pois era produzida por escravos. Hoje está na base do jeans nosso de cada dia, inventado em 1850 em São Francisco por um alfaiate judeu, desenvolvido para ser a calça ideal do trabalhador.
Apesar de um fenômeno quase inexplicável, dá para se constatar que cada era ou periodo histórico teve uma cor caracteristica, uma cor predominante, a mais desejada, a cor então da moda, a que seria , digamos, a certa, aquela que, se adotada mostraria status ou um estar por dentro de seu assunto e momento.
Não é por nada que os cortesãos ou bajuladores da corte francesa no século XVIII, desejosos de alí firmar posição, rápido adotaram o rosa açucarado, o azul agua marinha e o amarelo dourado, as cores favoritas de Mme de Pompadour, amante do Rei Luis XVI.
Nao é também a toa que a castelã do campo inglês, a americana Nancy Lancaster, tão zelosa na restauração de suas multiplas casas se preocupava em raspar as paredes em busca da cor usada no periodo em que haviam sido construidas. Em Kelmarsh Hall, um imóvel de 1760, descobriu que a cor original era justamente a que teria sido moda então, o cinza frances, com uma pitada de azul, outra de pink, mas nada de amarelo. Mais tarde, quando sócia da Colefax and Fowler, na loja de Dover Street em Londres, criou com o colega John Fowler o famoso “yellow room”, até hoje quase intacto e ainda tão visitado por decoradores a cata de inspiração e que tão bem simboliza o refinado e aristocratico “english country style”.
Existe na Inglaterra a Farrow and Ball, uma empresa fabricante de tintas e papeis de parede tradicionais, criada em 1930, dedicada exclusivamente a pesquizar e produzir cores historicas, aquelas de fato originais. Tanto que , entre os seus maiores clientes, está o National Trust, entidade responsavel pela preservação do patrimonio histórico na Inglaterra. Sabe-se que, até porque prédios e monumentos historicos sofrem inúmeras e mal feitas reformas ao longo do tempo e são pintados e repintados ao bel prazer de seus ocupantes, os orgãos de preservação e manutenção vão ter de optar por certas regras e critérios, nem sempre unanimes, em relação a que periodo se ater na hora da restauração.
A chamada cor de Roma que, na cabeça das mais recentes gerações de visitantes e turistas, era composta de ocres e rosados, sofreu reconceituação quando, há alguns anos, o Patriminio histórico local resolveu optar por devolver aos seus monumentos e palacios a cor do período original da construção. Descobriu-se que, em periodos romanos bem mais remotos, as casas eram pintadas de azul bem clarinho, cinzinha claro, baunilinha e não o que passáramos a entender como “cor de Roma”. E foi então que a Embaixada do Brasil em Roma, o famoso palacio Pamphilli, há uns 12 anos atrás ganhou cor nova. De ocre-rosado passou a um cinza-azulado claro.
As cores fazem também história e ficam associadas aos que souberam adotá-las e divulgá-las como se fossem delas pais e criadores. O Schiaparelli pink da famosa designer Elsa Schiaparelli, tão chegada aos artistas surrealistas da época, a ela sobrevive. Também o shocking pink que Yves Saint Laurent, alias grande admirador de Elsa, mais tarde adotou é, por sua vez, bem reconhecível. É diferente do tom adotado pela Maison Channel no mesmo período, nuances que muitas mulheres saberão distinguir. Contam as fábulas que Schiaparelli teria se inspirado no diamante cor de rosa de uma cliente. E assim, uma cor de que muitos tem medo, pois que para muitos soa cafona, passaria a ser inn se bem usada. Sobre esta cor tão sedutora, ficou famosa a frase de Diana Vreeland, a primeira e mais conhecida editora de moda do século XX, que afirmava ser “o rosa shoking o azul marinho da India”.
Não somente as cores nas roupas que vestimos ajudam a enfeitar. Não esqueço a máxima de Lady Russell, a já falecida embaixatriz da Inglaterra no Brasil nos anos 70 -“Nao tenha medo de um sofa vermelho num salão de festas. As mulheres nele ficarão muito mais bonitas do que sentadas num sofa bege”.
Na decoração, o sempre lembrado decorador dos anos 70, David Hicks fez sucesso justamente por introduzir cores fortes e contrastantes no cenário de uma elite acostumada ao estilo ingles desbotado que até hoje passa de geração em geracão. Acreditava na força de colocar juntas cores com uma mesma origem, como vermelhos e rosas, laranjas e amarelos. E hoje, depois de tanto bege tom sur tom, e de tanto branco imposto pelo minimalistmo, os coloridos a la David Hicks voltam a moda embora em nuances mais delicadas. Entre os anos 30 e 40, o decorador texano William Pahlmann, por meio dos ambientes coloridos que criava no setor de decoração da Lord&Taylor, conseguiu fazer crer às novaiorquinas que o turqueza e o Inca Pink eram cores ideais para as suas salas de visitas. Também a decoradora tão market conscious, Dorothy Draper, uma espécie de precursora de Marta Stewart, provou que americano é bem chegado a ambientes coloridos. Fez sucesso nos anos 40 e 50 com seus carpetes verdes combinando com paredes amarelas e enormes estampas de folhagens e flores coloridas. E hoje, por causa de exposições e novos livros sobre o seu trabalho, está de volta às paginas das revistas de decoração.
Outro decorador que tornou legendários interiores com paredes laqueadas e coloridas foi o americano Billy Baldwyn. Poucos ambientes foram mais fotografados por revistas e livros de decoração no século XX do que o apartamento de Cole Porter em Nova Yorque, laqueado de marron escuro e estantes de metal dourado. No apartamento que fez para a personalíssima Diana Vreeland, também em NY, tudo era vermelho. Não só as paredes foram cobertas com tecido estampado de fundo vermelho, como as cortinas, o carpete e as portas laqueadas ganharam essa cor. Brincando, ela dizia morar num garden in hell (um jardim no inferno). E na peça de teatro sobre sua vida, encenada com sucesso na Broadway e em Londres, o cenário foi uma recriação desse seu tão vermelho “habitat”.
Por meio da cor também se pode operar milagres a relativamente baixo custo. A decoradora Sister Parish , quando recém casada, surpreendeu a sogra pintando de branco móveis antigos da família. John Fowler pintou de marfim um piano para a legendária Lady Diana Cooper, embaixatriz da Inglaterra na França durante a Segunda Guerra. David Hicks pintou de vermelho uma mesa de pingue pongue. Rose Cummings gostava de paredes nos tons de orquideas arroxeadas, uma paleta nada facil de acertar com classe. Syrie Maugham, nascida em 1879, fez nos anos 20 a primeira casa toda branca, das paredes ao tapetes, estofados, cortinas sem dispensar muito gesso e espelhos. Inovou, embora o efeito fosse o de um branco mais barroco, nada minimalista.
Há quem prefira as cores pastel da mais pobre e discreta corte sueca no século XVIII do que os dourados e espelhos dos Luizes em Versailles. Quem hoje gosta do ouro desbotado em molduras e frisos antigos pode estar esquecendo que, de início, quando folheados a ouro eram certamente bem mais espampanantes.
Cores e cidades também parecem ter cor propria. O Rio de Janeiro é azul. Londres pegou fama de cinzenta. A Tunisia é branca e o Marrocos da cor do assafrão. Certamente ao contrário do que acontece em outras cidades americanas, num cocktail em Nova Iorque a maioria das mulheres estará de preto. Não foi de surpreender, portanto, que num jantar em casa de Sister Parish, há umas boas quatro décadas, a então ja bem velhinha decoradora Rose Cummings atraiu tantos olhares ao adentrar vestida num longo verdão, na verdade enrolada numa cortina de seda antiga.
Hoje, para se recriar o verde tão sedutor de um dos pequenos salões de Charlottenhoff em Postdam na Alemanha, a ex-casa de campo do Principe Frederico Guilherme IV e de sua mulher, a Princesa Elizabeth, não é mais necessário usar arsênico, então tão imprescindivel na obtenção de certos tons. Misturar na lata à mão é coisa do passado. Nenhum decorador vai deixar de possuir uma cartela da Pantone, a compania americana conhecida por seu sistema de misturas. Apesar de associações dedicadas em estudar, fazer prognosticos ou impor as futuras cores “in”, tanto na moda como na decoração, o fator surpresa vai prevalecer.
Afinal, segundo o The Colour Answer Book de Leatrice Eiseman, o vermelho será sempre o preferido dos intensos, o rosa dos romanticos, o amarelo dos perfecionistas, o laranja dos determinados, o verde dos sensiveis, o azul dos confiaveis e o roxo dos intuitivos.