Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
20 de fevereiro de 2013
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O ORNAMENTO

UMA QUESTÃO SEMPRE EM ABERTO

Embora o ornamento tenha sido incriminado pelos modernistas e continua a sê-lo por arquitetos e designers adeptos do minimalismo, é impossível, ao longo da história, não associá-lo ao princípio evolutivo da forma através das diferentes culturas. Sempre serviu como expressão simbólica e cultural e nunca deixou de ser revelador dos ânimos, dos sentimentos e do estilo determinante dos mais diversos períodos históricos e sociais. Mesmo a sua supressão em determinados momentos está ligada à história da representação e da expressão da arte e do design. Tem um conteúdo narrativo que pode transformar edificações e objetos em novas realidades.
Essa relação do ornamento com a produção artística, científica e tecnológica em relação à modernidade e aos impulsos criativos do indivíduo, nunca deixou de ser tema de debates entre intelectuais. E por isso, para os atuais designers e arquitetos talvez seja interessante saber mais sobre as discussões e a intensa rivalidade que existiu durante o período da Secessão Vienense, no início do século XX, entre os famosos arquitetos Adolf Loos e Josef Hoffman cujas obras são valorizadas até hoje. Adolf Loos tinha sobre o ornamento idéias assustadoramente radicais e nunca hesitou em divulgá-las. Escreveu que “ os primitivos, tais como as crianças, os criminosos, os degenerados e as mulheres tinham uma irrefreável atração por se enfeitar e por ornamentar o seu entorno. Acreditava que à medida que o homem evoluísse, essa necessidade desapareceria. Num de seus ensaios mais famosos, Ornamento e Crime, bradava como grande máxima que “a evolução da cultura é sinônimo da retirada do ornamento dos objetos do dia a dia”.
Um de seus alvos acabou sendo justamente o colega, e também famoso arquiteto Josef Hoffmann, co-fundador da Vienna Secession e da Wiener Werstatte e essa tensa discussão sobre o papel do ornamento na arte e na arquitetura foi o tema de uma curiosa exposição realizada no Museu Josef Hoffmann em 2008, em Brtnice, cidade natal do arquiteto e hoje território da Republica Tcheca. Organizada pelo MAK, o museu de artes decorativas de Viena, a mostra “Josef Hoffmann- Adolf Loos, Ornamento e Tradição”, tentou deixar claro para as novas gerações, através de moveis, objetos de vidro, desenhos, fotos e textos sobre eles e de autoria desses influentes arquitetos, os pontos de convergência e as diferenças entre os dois.
Foi ainda na escola primaria em Iglau na Moravia que Josef Hoffmann (1870-1956) e Adolf Loos (1870-1933) se conheceram. Mais tarde estudaram juntos no departamento de engenharia da Escola Secundária de Comercio em Brno. Depois da graduação não mais se viram, até que bem mais adiante viriam a se reencontrar em Viena, ambos emergentes arquitetos de sucesso.
Na Viena de 1900 a questão do ornamento já era assunto controverso no debate estético e, nesse ambiente de idéias novas e efervescentes, não seria de estranhar que animosidades viessem a tona e dominassem a cena.
Hoffmann passou por diferentes estágios até que ficasse bem caracterizado o seu estilo de design. Foi aluno de Otto Wagner que sonhava com fantasias arquitetônicas em grande escala, participou da Secessão Vienense que não desprezava o ornamento mas sim o reinventava e definiu seus princípios puristas em obras como o Sanatório Purkersdorf, construído em 1904 e o Palácio Stoclet em Bruxelas entre 1905 e 1911. O sistema de superfícies geométricas, uma constante em sua trajetória, acabou se tornando sua marca registrada. mas não ele se contentaria em apenas edificar. Como um dos lideres da Viena Secession, sua preocupação maior era com a cultura do design, com a sua integração ao dia a dia, com a qualidade e a importância do objeto funcional e com a elevação deste à categoria de arte. Dai talvez a explicação para o interesse que Hoffmann ainda tanto desperta. Ele teria sido, de fato, um precursor da figura unívoca e tão contemporânea hoje do arquiteto/decorador/designer. Seu conceito era o de Gesamtkunstwerk que quer dizer arte total, ou seja, justamente o da construção de um design abrangente e completo através do desenho meticuloso de cada peça, do tapete à colcha da cama, passando pelos moveis, talher, pratos, tecidos e pelas molduras dos quadros e artefatos de iluminação. Em seu tempo, a maioria desses objetos eram desenvolvidos sob os auspícios da influente Wiener Werkstatte (Viena Workshops) da qual Hoffmann foi o fundador em1903 e permaneceu diretor durante quase toda a sua vida.
Adolf Loos, por outro lado, critico dos movimentos que à época faziam sucesso, desdenhava desses chamados artistas-arquitetos que assinavam o design de seus objetos e clamava a volta à tradição do artesanato anônimo. Dizia que perdiam tempo e assim só fazia distanciar-se da Wiener Werskstratte, o movimento artístico reformista que justamente pretendia infundir com arte o ambiente e as coisas do dia a dia das pessoas. As mais conhecidas realizações do arquiteto no estilo e na linha de suas idéias radicais baseadas no desenvolvimento funcional da tradição são o interior do café Museu na Karlsplaz de 1899 e a Casa da Michaelerplatz em Viena em 1911.
Loos tentava seduzir não só com obras mas com palavras e textos. Em 1908, em seu ensaio Ornamento e Crime, onde quer definitivamente associar a arquitetura despojada de ornamentos à cultura da modernidade, ele não deixa de tocar num ponto chave da formulação da arquitetura moderna. Lê Corbusier, em 1920, usou as idéias de Loos como exemplo da conversão da arquitetura ao modernismo quando deixa para traz o historicismo do século XIX. O ensaio de Loos também já parecia enunciar a branca abstração do “less is more” e a idéia de rigor funcional da arquitetura e do design internacional dominante no século XX. O que as pesquisas para a mostra acabaram trazendo também à tona foi o aspecto cientifico e mais obscuro dessas suas ideias, na verdade baseadas na antropologia criminal do século XIX, de Cesare Lombroso.
Nietzche, por exemplo, condenava a cultura da decoração e dizia que o ornamento era uma doença cujos sintomas não só infectavam a arquitetura histórica como a própria historiografia contemporânea. E Loos, naquele mesmo ensaio deixa claro que despojar-se do ornamento é premissa para a evolução da espécie civilizada e que o ornamento seria coisa de raças inferiores e primitivas como a dos índios ou degenerados. Fala com horror das tatuagens e consegue dizer que “ se alguém tatuado morre em liberdade é porque isso está acontecendo um pouco antes do momento em que cometeria um crime”, frase que hoje horripilaria os ouvidos politicamente corretos do homem ocidental. O feminino também parecia incomodá-lo: “o ornamento na mulher remonta à selvageria, tinha significado erótico”
A rixa definitiva entre Loos e Hoffmann, iniciados na carreira a partir de premissas semelhantes na medida em que ambos eram por uma nova arquitetura na trilha de Otto Wagner e contra a pompa historicista do estilo Ringstrabe, deu-se ainda cedo, em 1898. Alega-se que Hoffmann teria impedido Loos de desenhar o salão de reuniões do edifício da Secessão Vienense. Em meio a tantas rivalidades, ciúmes e teorias, fato é que, bem antes, já haviam decidido trilhar caminhos opostos. O cúmulo nessa já famosa e histórica controvérsia deu-se quando Adolf Loos, em 1927 fez uma palestra no Musikverein de Viena chamada “As Desgraças de Viena, Conclusão Final”, onde, do alto de sua arrogância, decretava o fim de qualquer coisa que julgasse ser inútil e supérflua. Mal sabia ele que depois do modernismo e do minimalismo o barroco moderno voltaria a tona e que em matéria do estilo e de forma, muita linguagens haverão de falar mais alto e ao bel prazer da evolução do homem e de sua subjetividade.