Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
15 de abril de 2013
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UMA CASA QUE ENSINA ARQUITETURA



Erguida em Paris no final da década de vinte, a chamada Maison de Verre (Casa de Vidro), esse mais importante projeto arquitetônico de Pierre Charreau, só foi construído graças ao entusiasmo, a ousadia e a persistência do casal Annie e Jean Dalsace, ele médico, ela uma apaixonada por tudo o que fosse contemporâneo, da forma reta e arrojada ao material menos usual. A ideia de Charreau, amigo do casal de longa data, e mais conhecido como designer de moveis, era criar a casa modernista padrão, servida por soluções tecnológicas avançadas e racionais, de execução rápida e econômica.
Traindo, de certo modo, esse conceito vanguardista, a Maison de Verre demorou quatro anos para ser concluída e custou bem mais que o pretendido. Seu projeto, na verdade um quadro de intenções desenvolvido no desenrolar da obra, que estipulava estrutura metálica e paredes de tijolos de vidro, na contramão das tradicionais de madeira, barro e cimento armado, fez dessa casa um dos mais bem sucedidos exemplos do ideal sonhado pelos arquitetos modernistas das primeiras décadas do século XX. Uma caixa translúcida plantada no fundo de um pátio do século XVIII que, com pilotis se acopla e sustenta o que sobrou de uma edificação antiga, a Maison de Verre segue servindo de moradia para seus mais novos donos, o casal Robert Rubin, que há menos de cinco anos adquiriu-a de Dominique Vellay, neta dos Dalsace.
Foi em 1927, bem no coração de St Germain de Prés, bairro da boêmia e dos intelectuais, que Annie e Jean encontraram esse hotel particular do século XVIII, destituído de beleza ou de maior interesse arquitetônico, mas com terreno suficiente para uma construção que pudesse também abrigar, sem conflito, o consultório do Dr.Dalsace. Sendo impossível demolir inteiramente o prédio antigo, pois a idosa inquilina do segundo andar se recusava a deixar o local, o jeito foi readaptar os andares abaixo com novos espaços onde entrasse muita luz e paredes que escondessem o que se passava no interior, garantindo a privacidade dos moradores.
Pouco da casa se vê da rua, muito menos que dispõe de um jardim do outro lado do pátio. Na fachada, numa mesma placa de metal onde se lê: Docteur, Visites e Service, três campainhas emitem sons distintos. Mais que tudo, impressiona o hall central, com suas onze colunas laranjas e pretas a estruturar a casa inteira, obra e graça do serralheiro Louis Dalbek que, chamado por Charreau para com ele mergulhar na aventura, dedicou mente e alma à engenharia do projeto. As janelas são altas, basculantes, e movidas por manivela que lembra as de navio. Em seu interior, painéis de metal perfurado ou de vidro ninho de abelha dividem os ambientes. Os armários embutidos, quase invisíveis na sua simplicidade, tem portas laqueadas de preto. Nos banheiros, mosaico branco. O linóleo de borracha claro forra quase todo o chão. Na sala de jantar, o assoalho é feito de pequenos tacos de madeira cubana alinhados em linha reta e bem encerados.
Na imponente biblioteca, uma escada de metal corre apoiada a um trilho na parte superior. O chão é de placas pretas de borracha. Livros, muitos livros, outra paixão de Annie Dalsace que sempre apoiou edições de artistas com capas especiais, e recebia em casa figuras do calibre de Max Ernst, Jaques Lipchitz e Juan Miro, explicam as enormes estantes de metal que ocupam na parede todo o pé direito. Escadas quase flutuando unem os andares sem delimitá-los. E portas de alumínio e cabides aparentes no mesmo material e em forma de bigode, acentuam o clima high-tech. No consultório, com sala de espera, atendimento e também de cirurgia, uma cabine telefônica de madeira permitia que o Dr. Dalsace falasse sem ser ouvido.

A ideia inicial de Charreau era que os tijolos de vidro, surgidos na França no século XIX, ideais para permitir a entrada da luz, pudessem funcionar como sendo a pele protetora da construção. Apesar de muito insistir, o arquiteto não obteve do responsável pela fabricante alemã, a St Gobain, a garantia de que os tijolos Nevada, de 20X20 e 4cm de espessura poderiam ser usados dessa forma. Com a ajuda do artesão serralheiro Dalbek e o construtor Bernard Bijvoet, foi inventada uma espécie de grade de metal que, ao agrupar os tijolos em blocos de 90X90, evitaria que fossem sobrecarregados pelo excesso de peso.
Foram quatro anos, de 1928 a 1932, de incansável e rica pesquisa sobre o comportamento do aço, do alumínio, como esconder chassis, tipos de solda, parafusos, como sistematizar a eletricidade, a calefação e a telefonia em espaço tão fora do comum. A ossatura metálica, no lugar das velhas vigas de madeira ou de concreto, atenderiam ao ideal de se criar espaços internos mais livres do que aqueles das casas tradicionais. Charreau, que morreu nos Estados Unidos em 1954, fazia questão de afirmar que não se tratava de submissão à técnica, mas de tomar dela emprestado dados materiais e humanos positivos. Segundo ele, nem a Maison de Verre, nem qualquer de seus três únicos projetos de arquitetura, dois deles realizados nos Estados Unidos, poderiam ser considerados frias “máquinas de morar”, termo tão usado e tão ao gosto dos críticos de então.
Quando era pequena e visitava a avó, Dominique Vellay não tinha ideia de estar frequentando uma casa que viria a ser tão cultuada, transformada em ícone e em fonte de ideias para arquitetos famosos como Richard Rodgers, que a descobriu em 1966, e se nela se inspirou quando fez o prédio do Lloyds Bank em Londres e o Museu Pompidou em Paris. Como não ver nesses trabalhos tão impactantes e contemporâneos em matéria de linguagem arquitetônica, as pegadas de Charreau e de sua Maison de Verre? Para a menina Dominique, a casa lembrava um barco e suas paredes translúcidas passavam sensação de delicadeza e fragilidade. Na introdução do belo livro, La Maison de Verre, da editora Actes Sud, Dominique Vellay lembra os momentos passados em companhia da avó no salão azul, assim chamado por causa do tapete cor de anil, onde eram organizados pequenos saraus musicais. Decorada com moveis assinados Pierre Charreau, hoje preciosidades; biombos, sofás e poltronas sempre cobertos com tapeçarias do famoso Jean Lurçat, amigo de infância do Dr.Dalsace e autor do retrato de sua mulher, em frente a escada principal, a casa é sem duvida um “cas d’ecole” ou uma “case study house”, uma lição de que a boa arquitetura não existe sem um bom cliente e uma total harmonia entre seu exterior e interior, entre o que veste a casa e o que a circunda. Na Maison de Verre, um segredo bem guardado que vale ser desvendado, as visitas guiadas são reservadas aos amigos da associação Museu do Vidro. O endereço é 31 Rue St.Guillaume, em Paris 7 e o telefone para contato 33-1-45449921. Tente quando de sua próxima visita a Paris.