Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
19 de julho de 2013
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O PRESIDENTE QUE BRINCOU COM DESIGN E ARQUITETURA



O democrata Thomas Jefferson que, em 1780, tornou-se o terceiro presidente dos EUA, foi um grande admirador da obra do arquiteto renascentista Andrea Palladio. Além de ter ficado na história como o congressista que redigiu, em 1776, a famosa Declaracão de Independência dos Estados Unidos, por ter sidoembaixador de seu país na França e também Secretário de Estado do Presidente George Washington, o político americano foi também um arquiteto auto didata que deixou um grande legado em matéria de design e um forte registro na paisagem arquitetônica dos EUA.
Embora autor de um documento que proclama que todos os homens tem direitos iguais independentemente de sua origem, e que o Governo deve ser o servidor e não o patrão do povo, Thomas Jefferson, nascido em fazenda, cedo, aos 21 anos, herdou de seu pai grandes plantações e muitos escravos. Num ano normal seriam uns 200 homens distribuidos entre Monticello e as outras plantações, quase metade deles com menos de 16 anos. Foi então que teve início a construção da famosa casa Monticello e sua história de amor com essa morada a qual retornava sempre, reformando e expandindo e onde viveu os ultimos 17 anos de sua vida. Foi alí que, jovem, viveu com a mulher Marta Skelton que, aos 10 anos de casada, faleceu depois de dar a luz a seis filhos, dentre os quais, somente dois alcançaram a vida adulta.
Só a plantação de Monticello abrigava uns oitenta desses escravos. E consta que Jefferson, em vida, libertou apenas dois deles, que teria deixado em testamento a liberdade de mais cinco e que teria decidido não perseguir os únicos dois escravos que fugiram. Todos seriam exímios comerciantes e membros da familia Hemings, sobrenome da escrava com quem teve uma filha em Paris e cujos descendentes vivem assumidos até hoje dessa origem.
Da França, onde conviveu e estudou a cultura européia, Jefferson mandava para Monticello sementes, plantas, estátuas, instrumentos científicos, desenhos de arquitetura e muitos livros, esses que Jefferson, no final de sua vida e já bastante endividado, vendeu para o Governo e que foi o núcleo da hoje famosa Library of Congress. Entre eles estão os “Quatro Livros de Arquitetura” de Andrea Palladio aos quais se referia como a Bíblia. Influenciado pela observação in loco e pela leitura de textos sobre arquitetura moderna e antiga, acabou criando um estilo hoje claramente americano que transparecia em seus proprios desenhos.
Como Secretário de Estado, Jefferson foi responsável pelo projeto do Distrito Federal de Washington. Trabalhando com o Mestre Pierre Charles L’Enfant, contratado para a empreitada, ele ajudou a esboçar o plano piloto da capital Americana e era ouvido na escolha dos projetos para os muitos prédios governamentais planejados. Segundo ele, tratava-se de uma oportunidade para “aprimorar o gosto de seus conterraneos apresentando a eles maquetes para estudo e imitação”. Quando convidado ele mesmo a projetar o Capitólio na Virginia, seu estado natal, Jefferson achou também que estava diante da oportunidade de “introduzir no Estado um exemplo de arquitetura no estilo clássico da antiguidade”. Atribui-se à influência de Jefferson o fato da maioria dos prédios governamentais americanos serem de estilo neo classico. Dai o historiador de arquitetura, o americano Fiske Kimball, ter declarado que “Thomas Jefferson foi o pai da nossa arquitetura nacional.”
Além de seu trabalho em Monticello, hoje transformado em Museu, foi na Universidade da Virginia que Thomas Jefferson pode melhor provar sua capacidade profissional e seu talento arquitetônico. Tinha, a essas alturas da vida, 76 anos. Incansável, batalhou pela autorização da cátedra, pelo terreno, fez os desenhos, planejou o curriculum e foi o seu primeiro Reitor. Os prédios iniciais foram projetados formando uma “vila acadêmica” onde estudantes e professores viveriam, aprenderiam e ensinariam numa grande comunidade. Cada prédio seria um modelo independente de arquitetura, além de moradia e abrigo. Das edificações originais, a Rotunda, inspirada no Panteon de Roma, até hoje chama atenção por sua ousadia. Trata-se do Campus universitário considerado por muitos americanos como o mais belo e importante do país. Basta dizer que em 1987 as Nações Unidas incluiram a “vila acadêmica” na lista de patrimonios da humanidade.
Em Monticello, além da casa e dos jardins, Jefferson se preocupava com a iluminação, com o aproveitamento dos pequenos espaços, com o desenho de portas, janelas, armários, relógios, candelabros, urnas para café e até mesmo as cortinas. Gostava de embutir camas, de espelhos concavos, monta-cargas, estantes giratórias, bancos mecanizados. Seus próprios aposentos foram apelidados por um hóspede de “sanctum santorum.” Inspirado por uma disposição de ambientes que havia visto e apreciado na França, Jefferson criou quatro espaços interligados; quarto de dormir, estúdio, estufa e pequena biblioteca. Nessa, digamos, suite-apartamento ele se dedicava aos seus múltiplos interesses que iam da arquitetura à astronomia, passando pela ciência e pelas plantas. Segundo as memórias escritas por Isaac, um de um seus escravos, consertar instrumentos e trabalhar na feitura de pequenos móveis, era para sua mente um relaxamento: - “Meu mestre tinha uma mão jamais vista para fazer chaves, cadeados e pequenas correntes em ferro e cobre”.
Jefferson gostava de engenhocas, de possuí-las e também de inventá-las. Em seu estúdio tinha as mais variadas ferramentas para observar, medir e registrar a natureza. Influenciado por pensadores do iluminismo como Isaac Newton, Jefferson acreditava que um sistema ordenado racionalmente governava a natureza e que, em se aplicando essas regras à ciência, a condição do homem poderia ser muito aprimorada. Gostava do lado de cálculo e matemático da astronomia. Quando Secretário de Estado, instaurou no país o sitema decimal para a moeda e lutou, embora sem sucesso, pela adoção de um sistema também decimal para pesos e medidas. Foi Presidente da Sociedade Filosófica Americana durante 17 anos e é hoje reconhecido nos Estados Unidos como um pioneiro em vários ramos da ciência como a paleontologia, a etnologia, a geografia e a botânica.
Se fosse vivo, certamente estaria conectado a internet e arquivando e-mails e documentos. Seu estudio ou gabinete em Monticello é considerado por muitos como o mais antigo dos escritórios modernos. Octogonal, em formato muito de seu gosto, alí uma pequena estante gira, a poltrona também e a mesa tem rodinhas. Sobre esta, um polígrafo, a copiadora que inventou e que duplicava as muitas missivas que escrevia e que organizava em conjuntos por ordem alfabética e cronológica. Em vida escreveu ao menos umas 20.000 cartas e, responder às que recebia, acabou se tornando um suplício do qual muito se queixaria, também em cartas.
Foram cinco décadas a serviço de seu pais, sob várias vestes, formas e em diferentes circunstâncias. No entanto, aquilo que foi o seu maior divertimento e paixão, a arquitetura, é o que ainda hoje lhe traz louros e lhe amplia a imagem. Em 1993, por ocasião dos 250 anos de seu nascimento, o Instituto Americano de Arquitetos o homenageou póstumamente com uma medalha de ouro por uma vida de grandes realizações e significativas contribuições para a arquitetura e o meio ambiente. Em 2001, Monticello foi o local escolhido para sediar a cerimonia de entrega do Pritsker Prize, considerado o maior premio de arquitetura do mundo. Numa viagem aos Estados Unidos, vale o desvio até Monticello para conhecer as curiosas modernidades de um homem nascido em 1743.