Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
20 de outubro de 2013
           « anterior | próximo »


BORDALLO PINHEIRO

Do Século XIX ao XXI

A minúscula Caldas da Rainha, cidade onde se vive e respira cerâmica, já existia quando o Brasil foi descoberto. Tendo percebido, em 1485, que naquele pedacinho de Portugal havia nascentes de boas águas, a Rainha Leonor, mulher de D.João II ordenou que ali se construísse um hospital. Pode-se dizer que foi esse o mais velho hospital termal do mundo, ou melhor, o primeiro dos mais agradáveis Spas de que se tem notícia. Não longe de praias e da cidade de Óbidos, era frequentado por Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas a cata de saúde e bem estar, e teve seu apogeu no século XIX.
Pois foi justamente no Distrito de Leiria, em 1884, que, por dois contos de réis, Rafael Bordallo Pinheiro adquiriu um terreno de duas nascentes e dois barreiros, ideal portanto para a fabricação de telhas, tijolos e – sua maior paixão – a louça artística, ornamental e de revestimento. Resolveu que ali, numa olaria modelo que construiu e denominou Fabrica de Faianças das Caldas da Rainha, jovens interessados se tornariam escultores, louceiros formistas e pintores vidreiros especializados em prensas de estampagem. Na verdade era um humorista. Divertia-se criando trabalhos figurativos e sátiros que retratavam não só animais das mais variadas espécies, frutas e vegetais mas também personagens característicos da sociedade de então. Exigente, enquanto vivo não cessou de aprimorar a técnica e de insistir no aperfeiçoamento de formas que, apesar da necessidade de recuperação ao longo dos anos, até hoje estão em uso. O Art Nouveau, apesar da preocupação de Bordallo em não se deixar influenciar por uma estética alheia à portuguesa, ali encontrou terreno fértil e as peças assinadas por Bordallo eram apreciadas nas muitas exposições internacionais realizadas naquele fim e começo de século, como a de Paris em 1889. Porém, como tudo da vida e, como para esse Mestre oleiro valia mais o aspecto artístico do que o econômico, a fabrica não escapou de vicissitudes e teve de ser vendida 1907, dois anos depois de sua morte.
Para sorte nossa, entretanto, em 1908, em terreno ao lado da antiga fábrica, seu filho fundou aquela que chamou de Fábrica Bordallo Pinheiro - e que sobrevive até hoje, graças ao grupo português Visabeira que, preocupado na perpetuação do artesanato e da pequena indústria tradicional portuguesa, a adquiriu em 2009.
Para ser diretora artística da atualmente chamada Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro, foi convidada a artista plástica Elsa Rebelo que cuidou da recuperação de moldes originais antigos, o que permite que hoje possam ser reproduzidas peças descontinuadas. Elsa, apaixonada pelo novo metier, tratou de fazer a catalogação de toda a produção bordalliana. Para cada produto criou fichas técnicas com informações sobre as cores a serem empregadas e o modo de aplicá-las de acordo com as premissas do artista que o idealizou.
Marca registrada, ou melhor, a verdadeira griffe da Bordallo é o desenho da “Folha de Couve.” Quem ainda não se deparou com pratos verdes imitando folhas ou com a sopeira bem redonda tal uma grande couve? Pois a Bordallo fez essa linha em cor de rosa, linda de morrer, assim como fez travessas, sopeiras, molheiras, potes, potinhos e muito mais, imitando bananas, girassóis, morangos, flores, aves, peixes, caranguejos e o que a imaginação extraisse das formas da natureza. Sempre houve na Bordallo a diferenciação entre as linha artística e a utilitária. Há também a humorística, com figuras populares que não poupam da sátira nem os ricos nem os pobres. Nessa qualidade tem-se ainda os chamados bules em movimento, com duas cabeças e escarradeiras ou penicos que satirizam o personagem inglês John Bull, símbolo de maus momentos vividos pelos portugueses pois lembra-lhes o “Ultimatum” infringido pelos britânicos em 1890.
A ideia hoje é que “se evolua sendo fiel à Bordallo” como declarou o diretor de Marketing da Visabeira, Pedro Bau. Em 2009, comemorando os 125 anos das Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro, sete artistas portugueses foram solicitados a fazer a reinterpretação de uma peça original. Entre eles, a famosa Joana Vasconcelos que recentemente expôs em Versalhes e a própria Elsa Rebelo que terminou apaixonando-se pelo ambiente de trabalho e a partir de então não mais deixou a fábrica.
Em continuidade a esse programa de divulgação e reafirmação da marca, mais recentemente, atravessando mares hoje bem mais navegáveis, foi criado o projeto Bordallianos do Brasil. Vinte artistas brasileiros como Caetano de Almeida, Vik Muniz, Tunga, Tiago Carneiro da Cunha para citar apenas alguns, foram convidados, separadamente, a passar dez dias em Caldas da Rainha mergulhados na fábrica, examinando formas e moldes, fazendo composições, escolhendo cores, e vivenciando o ambiente para depois produzir uma peça artística que, ao mesmo tempo em que se inserisse na tradição bordalliana, dialogasse com o século XXI. Sempre usando como suporte as matrizes naturalistas , todos trabalharam com questões conceituais contemporâneas, uma poética própria e homenagendo a sedutora fábrica, transportada assim do século XIX ao XXI.
O artista plástico Caetano de Almeida, o primeiro a fazer a viagem, em setembro de 2011, depois de receber um inesperado e-mail com o convite, conta que o que mais o comoveu foi ver a paixão de todos os funcionários pela fábrica. –“ As pessoas tem aquilo como vida. O ambiente tem um caráter muito especial. Todos tem paixão por sua história e conhecem profundamente o que fazem.”
A obra produzida por Caetano chama-se “Delicatesse” e representa uma galinha ruiva sobre a qual ele sobrepôs asas de um galo de luta. Rodeada de flores delicadas, a ave segura um ovo com uma das patas. Utilizando diferentes formas, criou uma galinha provocatória, dramática e contemporânea, bem a par com o mundo de hoje, cheio de contradições e contratempos. Caetano fez questão de preservar as formas originais da Bordallo, mesmo que acopladas, no sentido de manter o humor que a cerâmica Bordallo carrega, aspecto que especialmente lhe encantou. Divertia-lhe, nessa cidade tomada pelo espírito Bordallo, visitar não só o Museu das Cerâmicas, como passear pelo grande Jardim em frente ao showroom da fábrica, repleto de gigantescos animais, cavalos marinhos e tantos outros bichos de cerâmica.
O poético trabalho de Tunga, um prato onde nas bordas passeiam dois lagartos, um com duas cabeças e o outro com duas caudas, apelidado pelo artista de “Transbordá-lo” , inspirou-lhe alguns versos reveladores: “Transito de Bordas/Bordado Transe/Dá em Dobras/Obra e Antro”. Vick Muniz deu a sua obra o nome de “Colador de Cacos” e explica no catálogo: “A faiança é um material simbólico da continuidade de valores dentro de uma família através de gerações, tanto pela sua fragilidade como pela sua hereditariedade. Me recordo da dor que minha mãe sentia cada vez que alguma louça antiga se quebrava em casa”.
Já Adriana Barreto fez uma sopeira/abrigo com passagens e aberturas que chamou de “Caldos da Rainha”. O artista Barrão criou a Terrina Noé. Com a paleta das cores bordallianas e a partir da apropriação de objetos díspares, criou sobre a tampa uma composição naturalista. Para o trabalho “Beijo”, Erica Verzutti escolheu elementos do trabalho de Bordallo Pinheiro que privilegiam a forma e seus contornos : -“A escolha dos vegetais- o pimentão, o rabanete e o aspargo – foi uma aproximação imediata já que costumo trabalhar a partir de frutas e vegetais”
Frida Baranek criou a obra “Xina”. São pratos simbióticos, uma mistura do abacaxi e da banana, ou seja, uma interpretação contemporânea das frutas e folhas tropicais, presença constante na história da Bordallo Pinheiro. Isabella Capeto, artista fashion, criou a natureza morta “Despacho” uma cabeça de porco que praticamente fundiu com diversas frutas e legumes. Já Maria Lynch optou por uma antropofagia do reino animal que denominou “A Ültima Lagosta”. Em dialogo com traços de sua própria obra, invertendo a escala, fez pequeninos os animais grandes que colocou atacando uma lagosta em tamanho natural: - “Toda a obra tem cor de sangue para nos fazer pensar que nós somos os próximos a atacar esses animais comestíveis que ali se encontram, numa bandeja, prontos para entrarem no forno”.
Regina Silveira fez “Assombrada”. Optou pela silhueta fiel da própria mão, como signo autobiográfico e associou-as às rãs bordallianas, uma das marcas preferidas do fundador. Thiago Carneiro da Cunha apropriou-se do Gato Bizantino, peça tradicional da Bordallo, para fazer o seu “Bizantino com fumaça”. O que quis foi propor a inversão da função da peça, transformando-a de escarradeira em incensário, produzindo a passagem de um movimento (liquido) pra baixo para um movimento (de fumaça) para cima.
Impossível descrever todos os trabalhos e conceitos embutidos. Quem não tiver tido a oportunidade de ver os trabalhos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou São Paulo já tem programa em futura viagem a Portugal e a Caldas da Rainha. No Brasil as peças dos artista brasileiros, em edições de 250 exemplares cada, estão sendo comercializadas pela Firma Casa em São Paulo, tel: 011-33859595.