Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
20 de fevereiro de 2014
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OBJETOS DE SONHO E PROVOCAÇÃO



Desde as primeiras décadas do século 20 até a exposição Le Surrealisme et l’Objet, atualmente em cartaz em Paris, no Centro Pompidou, aconteceram dezenas de mostras, nacionais e internacionais, apresentando o resultado de uma produção artística revolucionária que nunca deixou de intrigar e de provocar a sensibilidade do público e de artistas de qualquer geração.
De início aconteceram na França onde o movimento germinou pelas mãos de Andre Breton, autor do manifesto fundador do movimento, de Marcel Duchamp, Man Ray e Salvador Dali, para citar apenas alguns, e depois onde houvesse um público sensível a estranhos objetos apropriados pelo simbolismo e que desafiam não só a relação entre sonho e realidade mas também o que tradicionalmente era considerado arte.
A grande mostra parisiense que permanece em cartaz até março de 2014, com centenas de esculturas belamente entronizadas e uma infinidade de fotos, conta a história do surrealismo desde a sua formação nos anos 20, passando pelo sucesso internacional nos anos 30, até o seu reconhecimento em Nova York em 1947, logo após a Segunda Guerra Mundial. A curadoria de Didier Ottinger tenta esclarecer sobre os diferentes ideais surrealistas, entre os quais a articulação da consciência individual com a sociedade ou ainda a recusa do etnocentrismo ocidental que se manifestava por um forte interesse pela arte africana, das Américas e Oceania. A ideia, segundo Didier, “é rasgar o véu da realidade para permitir a intrusão do sobrenatural imaginado”. Outro ideólogo e grande artista desse primeiro período foi o alemão Hans Bellmer que, em sua “Pequena anatomia do inconsciente físico ou pequena anatomia da imagem”, dizia que “o objeto idêntico a si mesmo permanece sem realidade.” É dele a famosa “La Poupée”, de 1933, uma boneca com dois pares de pernas, bumbum invertido e articulações maleáveis. Sua poética reside em metamorfosear o corpo, destruí-lo, reconstituí-lo e reorganizá-lo em combinações forçadas.
Em 1924, o surrealista André Breton propôs a seus pares que “se fabricasse, na medida do possível, alguns dos objetos que vemos apenas em nossos sonhos”. Foi, no entanto, Marcel Duchamp, um dos primeiros artistas que passou a considerar objetos manufaturados como objetos de arte, apenas assinando em baixo ou adicionando a eles uma frase que convidasse à reflexão. Dentre os seus ready made ou objets trouvés, o mais famoso talvez seja o urinol em porcelana, de 1917, que ele batizou “Fontaine”. Somente uma foto dessa peça está na exposição pois, em 2006, quando exposta no mesmo Pompidou, um visitante munido de um martelo, partiu contra a obra sob a desculpa de estar cometendo um atentado artístico. Já Salvador Dali contribuiu para o movimento com elementos de clara profanação sempre evidentes em seus trabalhos. Não bastava que se visse a obra. Era preciso senti-la, tocá-la, sentir seu cheiro, seu gosto, experimentá-la. Na mostra, ao lado de diversos objetos de sua autoria, o “Le Veston Aphrodisiaque” de 1936, cheio de copinhos contendo licor de menta e o “Buste de femme retrospectif”, um busto de mulher em bronze adornado de milhos, baguette, pérolas, colar escrava e de um tinteiro para duas canetas sobre a cabeça, incitam e provocam .
Até se chegar às esculturas de Miró dos anos 60, a exposição revela o lado desafiador do surrealismo e o diferencia do gesto dadaísta, por sua vez niilista e iconoclasta. O objeto surrealista expressaria a obtenção de uma sobreposição ao real tanto que, lembra Didier, nos anos 30, a fina flor dos surrealistas se filiou ao partido comunista num gesto de vontade de ruptura com a ordem burguesa estabelecida.
Nas experimentações surrealistas, os objetos, talvez mais do que a pintura ou outros meios artísticos, tiveram um papel essencial. Não importa se sugeridos pela imaginação onírica ou manufaturados, se banais ou exóticos. O que valia era a destituição de seu significado original e o fato de lhes ser impregnado, de forma poética, um novo significado simbólico. Ou seja, se transformavam em máquinas de fazer pensar.
Além de tentar reproduzir o ambiente de famosas exposições anteriores através da ambientação e de fotografias, de mostrar preciosos objetos como por exemplo o “Dejeuner en Fourrure”, uma xícara de café com pires e colher em pele de animal, de Meret Oppenheim; o Téléphone-Homard”, um telefone com lagosta de Salvador Dali, o “Hérisson” um porta garrafas, típico objet trouvé ou ready made de Marcel Duchamp comprado à época no Bazar do Hotel de Ville; a “Table Surrealiste”, mesa-escultura de Alberto Giacometti ou a natureza morta “Ceci est um morceau de fromage”, um queijo emoldurado e posto dentro de uma cúpula de vidro, de René Magritte, a exposição faz um contraponto com artistas contemporâneos. Entre eles a inglesa Mona Hatoum, os americanos Paul McCarthy, Ed Ruscha e Cindy Sherman, pioneira da fotografia pós-moderna e da arte conceitual, cujos trabalhos só fazem sublinhar a perenidade das questões levantadas pelo surrealismo.
Durante a Segunda Guerra vários membros do movimento como André Breton, Marcel Duchamp, Wilfredo Lam, Roberto Matta, Yves Tanguy e Andre Masson mudaram-se para os Estados Unidos. Entre as exposições que ali aconteceram, chamou especialmente atenção aquela realizada na Whitelaw Red Mansion. Em todo o espaço expositivo, Marcel Duchamp dispôs quilômetros e quilômetros de cordas entrecruzadas formando uma teia de aranha que fazia submergir e ao mesmo tempo, de certo modo, dava unidade às obras de todos os artistas.
No pós guerra, em 1947, de volta à França, o movimento marcou presença na Galerie Maegth, até hoje em atividade. Naquele ano, do dia 7 ao 29 de julho foram reunidos trabalhos de 90 participantes representando 24 países. Concebida como uma “parada espiritual” o visitante tinha acesso à exposição por meio de uma escada de vinte e um degraus modelados como lombadas de livros, “etapas progressivas de uma iniciação ideal”. Só então se chegaria à Sala das Superstições que evocava uma gruta simbolizando os medos atávicos da humanidade. No ambiente seguinte, cortinas de chuva purificariam os visitantes que dariam com objetos carregados de misticismo e divinizados como num altar. Para a capa do catálogo de luxo da mostra, Marcel Duchamp criou um seio de borracha em relevo acompanhado na contracapa dos dizeres “Por favor tocar”. Já em 1959, na Galeria Daniel Cordier aconteceria a oitava exposição internacional do Surrealismo e em 1965 foi a vez da décima primeira na Galerie L’Oeil também em Paris.
Para a atual mostra no Pompidou, que mais parece um grande gabinete de curiosidades, o curador precisou conseguir, não apenas que museus, mas também que inúmeros colecionadores privados lhe emprestassem seus tesouros, esses que até hoje intrigam não só críticos de arte mas também psicanalistas e filósofos. Além de um belo catálogo, a mostra ensejou a publicação do primeiro “Dicionário do Objeto Surrealista” pela editora Gallimard.
A iniciativa da exposição do Pompidou se deve ao Museu Hirshorn de Washington onde a mostra “O surrealismo e o Objeto” foi idealizada e esteve exposta antes de viajar a Paris.