Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - HALL - ABIMAD
 
13 de maio de 2014
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REVIVENDO A BELLE EPOQUE



Era um tempo de progresso, bonanza e de criatividade na industria, na moda, nas artes, no teatro e na musica. Um periodo de relativa paz na Europa que durou do final da Guerra Franco Prussiana em1871 até 1914, o início da Primeira Guerra mundial do seculo XX.

Em Paris, tanto a burguesia como a classe media viviam para a beleza e o prazer, talvez desejosos de não se conscientizar da pobresa que ainda grassava ao seus redor e dos problemas que se anunciavam por vir. Foram anos de ouro que especialmente marcaram a elegancia da mulher parisiense. Paul Poiret decretara o fim do espartilho e a Haute Couture era inaugurada. A criatividade e a modernidade em todas as areas pareciam embaladas pelo progresso material e pela chegada de um novo século.
Apenas na França 150 tipos de carros era fabricados e exportados para o mundo inteiro. Limusines eram feitas sob encomenda para o Csar Nicolau da Russia. E foi num Peugeot que o corredor Julex Groux ganhou a corrida de Indianapolis 500 em 1913. O país tomava a dianteira também nos céus. Em1908 Bleriot cruzou o canal da Mancha e em 1913 Roland Garros fez o primeiro vôo sobre o Mediterraneo. O artista plastico Marcel Duchamp, nesse mesmo ano apresentou o seu primeiro ready made, uma roda de bicicleta e seu banquinho, defendendo o conceito de que qualquer coisa é arte desde que assim se proclame. Foi também em maio de 1913 que o arquiteto Auguste Perret terminou a construção do Teatro dos Champs Elysées, que seria em seguida inaugurado com a legendária performance de O Rito da Primavera pelo Ballets Russes de Diaghilev, evento de que se fala até hoje. Dus décadas antes os irmãos Luminere já haviam inventado o cinema e uma media de mil filmes por ano eram produzidos pela Gaumont e pela Pathe, empresas ainda nossas familiares... O ultimo onibus puxado por cavalos fez o trajeto Saint Sulpice-La Villette também em 1913. Paris imperava em material de luxo e riqueza. A modernidade movia os espíritos.Tudo o que jamais o fora, parecia então possivel
Foram anos marcados sobretudo pelos ecos do esplendor da Grande Exposição Universal de 1900 e da pujante arquitetura que surgiu em suas pegadas
Nesse ano, sob a batuta do arquiteto Charles Girault foi construido o Petit Palais no estilo Beaux Arts, proximo ao famoso Grand Palais, como um espaço temporário que pudesse servir para abrigar a mega exposição que celebrava a chegada do seculo XX. Foi uma celebração cultural, industrial e culinária que atraiu mais de 50 milhões de visitantes.
Assim como a Torre Eiffel, também construida como monumento a ser destruido posteriormente mas que o sucesso salvou desse destino, o Petit Palais sobrevive até hoje e é lá, à sombra do vizinho Grand Palais, que no dia 12 de abril ultimo, foi inaugurada a exposição Paris 1900, A Cidade Espetáculo que pretende, com duração até agosto de 2014, fazer com que o público possa reviver e compartilhar o esplendor de uma epoca que alguns denominavam de ouro, outros de Dourada mas que só bem mais tarde passou a ser chamada pelos saudosistas de Belle Èpoque.
A atual exposição chama atenção para diferentes aspectos e se divide em seis areas expositivas com esculturas, pinturas de mestres do calibre de Renoir e Toulouse Lautrec, filmes, fotografias e posters que evocam a vibração do período. Paris, Janela do Mundo dá nome ao primeiro paviilhão e faz referencia à Exposiçåo Universal de 1900 que foi justamente o que inspirou o atual diretor do Petit Palais, Christophe Leibault, a partir para a nada fácil empreitada de reconstituir o periodo Belle Époque em uma só grande mostra. Nessa primeira parte são lembradas as belas e entao recém construidas Gares de Lyon, d Orsay e des Invalides, assim como a primeira linha do metro. Já o segundo pavilhão é dedicado ao estilo Art Nouveau que aflorou nesse periodo como enorme vigor. Expõe obras de Alphonse Mucha, famoso por seus posters e nos deleita com vasos, vidros de perfume, candelabros e outras criações de René Jules Lalique e de Gallé. Aos impressionistas e pós- impressionistas, como Monet, Cezanne, Emile Bernard e Renoir, entre outros, foi dado o terceiro pavilhão que fala da efervescencia e da ousadia dos novos e polêmicos salões de arte, galerias e ateliês.
Já no quarto pavilhão, que atiça a atenção dos apaixonados por moda, modelos com vestidos desenhados pela estilista Jeanne Paquin e outros provenientes das então famosas lojas da Rue de la Palais que atraiam um público cosmopolita e de altissimo poder aquisitivo são uma aula de encantamento. Era o tempo das famosas midinettes. Tamanho era o triunfo da moda parisiense que basta dizer que no alto do monumental portão de entrada da Exposição Universal em 1900 havia, tal qual uma figura de convite, a imagem esculpida de uma parisiense vestida por Jeanne Paquin. Também, para deleite de quem se animar a uma viagem a Paris e a um mergulho no mundo da Belle Epoque, vale dizer que estão expostos os mais belos tesouros do Palais Galiera, atualmente um museu de moda, como a célebre capa assinada pelo famoso costureiro Worth acompanhados de retratos mundanos que evocam o mundo das modistas por artistas da qualidade de Degas e de outros grandes nomes da pintura do período.
Os dois ultimos pavilhões foram dedicados ao entretenimento, um aspecto marcante do periodo. Espetáculos de opera, teatro, circo e de cabaré abundavam para deleite e prazer de uma sociedade ansiosa por diversão. As famosas casas de espetáculo como o Folies Bergère, o Moulin Rouge e o Chat Noir que foram tema de pintores como Toulouse Lautrec são ali homenageadas, templos onde os parisienses se entregavam à mundaneidade, afogavam as mâgoas no absinto, enchiam os olhos nos espetáculos das bailarinas de can-can e se deixavam sucumbir ao carisma de uma Sarah Bernardt que tanto sucesso fez com suas peças Les Amours de la Reine e Jeanne Dore, entre tantas outras. Ao visitar e vivenciar a exposição vai ser possivel ao publico entender porque Paris e seus habitantes, nesse início de século, acreditavam piamente que a cidade seria para sempre a capital do mundo e dos prazeres. Nem sequer a proliferação de bordeis e da prostituição que tanto marcaram o periodo tirou de Paris nesse momento a fama de a cidade do luxo e da recreação.
No entanto, se o mito da Belle Epoque perdurou até nossos dias, não terá sido apenas pelo contraste com os horrores da Grande Guerra que a sucedeu, mas porque sem dúvida nenhuma se apoiou numa efervescência cultural, estética e progressista cuja força, energia e qualidade a atual exposição consegue plenamente reconstituir.