Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Wish Casa
21 de novembro de 2010
           « anterior |


BARROCO DESPOJADO



Há 40 anos Cecília Gusmão Vicente de Azevedo vive no mesmo endereço; o Edifício Giselle na Avenida 9 de julho, um arrojado projeto do brilhante arquiteto Telésforo Cristofani, falecido em 2002, aos 72 anos, e que apenas agora começa a ser reconhecido. Primeiro, morou num dos apartamentos do segundo andar desse prédio de concreto aparente em forma de H, composto de duas torres unidas por um elevador central e que chama a atenção pelos volumes salientes e em balanço nas suas laterais. Hoje, ela impera na cobertura que une a área de dois apartamentos e é duplex.
Menina rebelde de família tradicional paulista, “aprontou”, ao menos aos olhos dos tios e dos avós que não compareceram ao casamento, quando, aos 17 anos, desagradou-os por ser o noivo de origem italiana. Depois de 10 anos, treinada no papel de mãe e castelã de uma grande propriedade em Piracicaba, viu-se de volta a São Paulo, separada do marido, o que para os padrões da família também não era de bom tom.
Nada de morar com os pais ou em sua órbita. Urbana, apesar de ser dona de uma bela fazenda no interior paulista, Cecília “cismou” que era no recém construído Giselle de Cristófani onde haveria de morar. Depois de se re-apropriar do nome de solteira que perdera ao casar, de muito insistir e barganhar com um dos proprietários, conseguiu ser dona de uma planta revolucionária para a época, um ambiente sem divisórias entre quarto e sala e onde a banheira de mármore passou a ser usada com gelo e champanhe em dias festa. Também achou interessante e inovador que, na sobreloja do prédio, houvesse espaço para o comércio, uma novidade nas construções do período.
A porta do elevador é vermelha, seu interior, bem azulão. Dele, no andar, chega-se a um grande espaço iluminado por janelas com vidraças inclinadas. À direita, a sala de estar. À esquerda outro ambiente com sofá, mesa de jantar com tampo de vidro e cadeiras LuisXV douradas. E também a escada moderna que leva ao andar superior onde tem seu quarto, varanda, banheiro e closet.
Muitas mesas “Saarinen”, brancas ou pretas, cadeiras escandinavas, poltronas de design contemporâneo. Além de muitos móveis e objetos bem “família tradicional” : um enorme arcáz francês antigo entalhado com telas pintadas nas laterais. Um trumeau que pertenceu à avó, peças de murano, pássaros e peixes em cores inspiradoras para qualquer décor, muitos vasos vieux Paris do século XIX com antúrios brancos, um centro de mesa redondo de cerâmica datado de 1918, copos de cristal com pintura dourada também herança de família, pratas e peças de porcelana de antiquários. Um barroco despojado é como o amigo César Giobbi bem definiu o seu estilo.
Em matéria de arte Cecília é fiel aos amigos. Prefere ter à sua volta trabalhos de artistas que freqüenta e tornou-se amiga, como Alex Fleming, e que sempre vê quando vai a Berlim. De Luis Hermano tem várias peças: um painel de metal enrolado logo à entrada, outro de cobre e ainda um bem grande feito com chapinhas de bijuteria prateadas garimpadas na 25 de março. Tem também um relevo de Emanuel Araújo que pôs na horizontal, um trabalho de Artur Luis Piza em metal aramado e uma figura com máscara de Gruber pai. Na subida da escada um Aguilar bem colorido. “A arte é o aquece a vida”, diz ela”.
No piso superior, mais arte antiga: um fragmento italiano do século XIX funciona como cabeceira de cama; na parede um grande espelho da casa da avó e duas colunas barrocas folheadas a ouro sobrepostas que adornam um canto discreto. Da varanda quadrada, uma extensão do quarto em dias de bom tempo, a bela e ampla vista do tradicional colégio Sacre Coeur, outra presença em seu entorno de uma São Paulo de antigamente.
No banheiro, 15 ganchos servem de cabide para seus inúmeros colares. E nos puxadores das portas dos armários, a coleção de bonés, peça, a seu ver, indispensável. Cecília é elegante, magra desde sempre, minimalista no vestir.
Na pequena estante da sala, livros antigos encadernados. Acaba de reler Proust, com mais gosto e proveito do que quando o fez pela primeira vez, há 30 anos. Um dia, ainda bem jovem resolveu que queria conhecer Nelson Rodrigues. Pegou a ponte aérea para o Rio mas, quando diante da porta do Jornal do Brasil onde o escritor trabalhava, não teve coragem de subir.
Por toda a casa, livros espalhados sobre mesas e mesinhas. Temas variados: ópera, pintura, decoração de mesas e exposições de pintura que viu no exterior. Um deles chama mais especialmente a atenção, “Dames: Women with initiative and attitude” de Eric Boman.
Ser independente, trabalhar, embora decisão tomada desde cedo, não foi caminho fácil. Cecília viajou, fez cursos no exterior, muito viu e aprendeu. Quando recém descasada, a convite de um amigo, foi trabalhar com publicidade e cinema. Tornou-se cenógrafa de documentários e longa-metragens nacionais, chegou a desenhar figurinos, ganhou prêmio, abriu escritório mas ainda não chegara lá. Certa vez, quando convidada a fazer um apartamento no Rio, recusou. Foi quando “ouviu” do analista. –“Você não teve a coragem de aceitar pois não consegue lidar com a realidade, apenas com a fantasia.” Foi quando caiu a ficha e Cecília descobriu que sua verdadeira vocação era a arquitetura e o décor. Resolveu “assumir”, botar a mão na massa. Da avó herdou o prazer de mexer em plantas baixas, fazer modificações, acréscimos. Hoje é dona da Cecília Vicente de Azevedo Arquitetura, Projetos e Cenários Ltda”. Trabalhos não faltam no seu dia a dia no escritório. Entre muitas reformas, fez a da cobertura onde mora, não sem antes pedir a benção a Telésforo Cristófani, o arquiteto de quem se tornara amiga e cujo trabalho ajuda a difundir.