Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Wish Casa
 
01 de julho de 2011
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ESCOLHAS MÍNIMAS

No habitat de Claudia Moreira Sales arte e arte aplicada se confundem e convivem em perfeita harmonia - resultado do olhar apurado e da sensibilidade dessa carioca formada na ESDI no Rio de Janeiro que, aos 12 anos de idade, viajando com a mãe pela Itália, apontou para uma vitrine e trouxe para o seu quarto de menina a luminária Eclipse de Vico Magistretti.

Em andar alto, num apartamento de grandes janelas que trazem luz e paisagem para dentro de casa, com décor "quase mínimo" onde cada coisa tem sua razão de ser e estar, é onde, há 25 anos, vive a designer. É ali que ela descansa do dia a dia agitado no escritório, se recolhe para criar com tranqüilidade e recebe poucos amigos de cada vez. 
Mesmo quando a sós com o marido, Claudia não hesita em usar porcelanas e cerâmicas antigas, individuais ou toalhas bordadas garimpadas em viagens e brechós. "As coisas são para ser usadas, apreciadas". Nada ali está posto ao acaso, mas sim porque a forma, a textura, o acabamento artesanal exímio, a qualidade e a excelência do design trazem prazer ao tato e ao olhar. Não importa o autor, se anônimo, ou o valor da peça."Quando compramos algo não estamos minimamente preocupados em estar fazendo um investimento, é uma questão de afinidade". Claudia faz com que me aproxime de uma mesa italiana antiga, presente da sogra. Percebo como  a encantam a elegância dos pés, o design anônimo, as perfeitas proporções, as ferragens originais, o tom da madeira e seu aspecto artesanal: "Fico curiosa em relação ao processo de criação de uma peça como essa, e sobre o que pensava o artesão-designer quando a imaginou."  Sobre a mesa, encostada contra a parede uma pintura pouco usual, um rosto anguloso de Milton da Costa. A luminária com base quadrada  de cerâmica preta e cúpula também quadrada, é de Lucia Ramenzoni: "Pedi a ela que me fizesse um cubo de cerâmica.  Ela aceitou fazer mas disse que nele daria um soco. Ficou lindo, bem do jeito dela." Nesse "tablescape" "tão Claudia" o vaso francês de vidro em tom amarelado, textura interessante e na forma de um ouriço é uma pincelada de cor.
Para Claudia não importa a época, o estilo, ou a procedência de um móvel ou objeto: "Tudo o que tiver um bom desenho há de bem interagir". Pois na casa de Claudia Moreira Sales, móveis de própria autoria como a mesa Iracema e o banco Jangada  dividem o ambiente com mesas de encostar D.José ou Maria I, cadeiras antigas brasileiras com ares europeus, poltrona de couro e madeira atribuída a John Graz (1891-1980), tamboretes de  Aurélio Martinez Flores e poltronas Le Corbusier (1887-1965) - a primeira compra para a casa quando Claudia, recém-casada, mudou-se para São Paulo. Em todos os ambientes, sala de estar, jantar e biblioteca, muita arte, quadros e esculturas, uma coleção curada pelo olhar do casal, visão que passa pelo afetivo e pelo sensorial e na contramão do habitual colecionismo.
Na parede atrás do sofá Tragara de madeira e couro de sua autoria, uma tela cinza e branco inacabada de Antonio Bandeira com baguete fininha de acrílico azul claro: "Acho esse quadro super-interessante pois justamente revela sobre a criação do artista".   Em outra parede um Portinari quase abstrato que há várias décadas foi considerado anti-arte numa exposição polêmica em Belo Horizonte. Já o pequeno Guignard, um rosto metade homem, metade mulher é de uma fase surrealista, bem curta, vivida pelo artista. Na varanda, uma maquete de Richard Serra. A poucos metros, a escultura em madeira de um índio catequizado pelos jesuítas é de autor desconhecido. Na sala de jantar duas vistas do Rio de Janeiro de Hagedorm (1814-1889) de 1852. E, da última SP Arte, uma fotografia nada típica de uma jovem Frida Khalo por Carl Van Vechten (1880-1964). Na biblioteca, enormes painéis do italiano Buffone dos anos 50, outro presente da sogra e perfeito exemplo da fusão arte X artes decorativas. São  feitos com papel fotográfico, aquarela e folhas de ouro. Nesse mesmo ambiente, além da luminária de Andrée Putman, a cadeira "quase mínima", um design da própria Claudia, diante da bela escrivaninha francesa do modernista francês Jacques Adnet (1901-1984), de madeira e couro, tão exemplar das artes aplicadas francesas onde a excelência da marcenaria e a qualidade do trabalho com couro são sinônimos de luxo.
É ali que a designer cria quando em casa, ao lado de uma pequena estante cheia de livros do mesmo Adnet, um design dos anos 50/60 para a loja Hermés.  Livros disputam lugar nas estantes da biblioteca e sobre qualquer superfície com belos objetos como um prato de cerâmica de Picasso na mesa em frente a um dos sofás. Uma bela edição de O Cão Sem Plumas de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) pode pousar tranqüilo ao lado do Rethinking Sitting de Peter Ospsvik e do vintage Collecting Design-Education of Vision de Gyorgy Kepes (1906-2011), achado num brechó em NY, autor cujos textos Claudia estudou na ESDI. Quando se formou no Rio de Janeiro em 1978 e foi estagiar no departamento de design do MAM carioca, a designer que segue a tradição modernista de Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues, não podia imaginar que, quase trinta anos depois, seria ela a designer brasileira escolhida para desenhar e produzir os bancos para todas as áreas de descanso do museu carioca, um trabalho ainda em produção.
Claudia que, segundo Ricardo Legorreta, é uma das mais talentosas designers que já conheceu na vida, segue fiel à madeira, "material tão nobre e que pode envelhecer tão bem" embora faça incursões com o limestone (pedra calcárea) e com chapas de aço. Ao contrário de Umberto e Fernando Campana a quem muito admira, não reage ao modernismo. Se alguma ruptura fez com sua formação em desenho industrial, foi a de valorizar e insistir na excelência do acabamento artesanal.