Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Wish Casa
 
10 de dezembro de 2011
           « anterior | próximo »


UMA CASA BRASILEIRA COM CERTEZA



De DNA libanês e alma brasileira, o arquiteto paulista William Maluf, ao contrário de muitos colegas, prefere se dizer decorador. Também na contramão de outros tantos, não se deixa levar pela corrente dos modismos e vai atras de resgatar o espírito da verdadeira casa brasileira dos anos 40, 50 e 60. Sobretudo aquela dos tempos em que o Rio de Janeiro era capital, e em que suas donas podiam dispensar os ditames do decorador, ou, caso quisessem, teriam à disposição, por exemplo, um Julio Senna que tão bem soube valorizar o "look" Brasil com abacaxis, luminárias de teto Paraty, bisbilhoteiras de mercúrio, pinhas, tendas listradas, palhinha indiana, muxarabis e black moors locais.
Na pegada de saudosas figuras como Germano Mariucci, Aparicio Basilio da Silva e Zé Duarte de Aguiar, Maluf não acredita em décor impessoal e minimalista, feito na prancheta: “Acredito num trabalho mais intuitivo que pode ganhar feições diferentes ao longo do caminho. Acho que o decorador tem de conhecer arte, mobiliário, tem de ter conhecimento para poder orientar o cliente e permitir que ele participe do processo. Não se trata só de se fazer um layout e sair comprando. Afinal estamos lidando com o dinheiro dos outros e a casa tem de refletir o morador.”
Um dos prazeres de William Maluf é olhar, buscar e sobretudo encontrar peças destes velhos tempos e usá-las de forma refrescada. Foi o que o levou, há mais de quinse anos, a abrir um antiquário, o Studio Jacarandá, no espaço onde trabalhava o amigo e também decorador Zé Duarte de Aguiar e que pôs recentemente para hibernar até decidir se vai reabrí-lo ou não. Ocupado com seus muitos projetos para clientes que atende com estofados, cortinas e moveis confeccionados ou restaurados em oficina própria, outro endereço que pertenceu ao amigo Zé Duarte, não resistiu a outro enorme prazer, o de recentemente dar um shake no próprio apartamento, situado próximo a Paulista, com vista para o MASP, num imponente edificio dos anos 50 onde mora há 8 anos.
Na nova versão, o hall do elevador passou a fazer parte da area interna, ganhou paredes verdes e um tapete decô de Regina Gomide. Semi embutidas, duas figuras de gesso de Eugenio Pratte: - “Eram moldes para esculturas em bronze feitas para enfeitar os túmulos. Eram de Pietro Maria Bardi que tinha uma galeria, a Mirante das Artes.”
Segundo Maluf, quem dita as ordens na casa é a cachorra CZ Guest, uma animada welsh terrier que substituiu o falecido Proust, outro terrier que já se foi deste mundo. Por causa dela, o chão que antes laqueara de branco, voltou a esbanjar a boa madeira dos antigos tacos. Muito do que no primeiro décor era vermelho virou verde, como as paredes de seu quarto, do quarto de hóspedes e aquelas da sala de jantar. As cadeiras vermelhas chinoiserie em volta da mesa foram despachadas para o apartamento no Guarujá. E dez poltronas de Joaquim Tenreiro com assento de palhinha, jóias escondidas de seu porão, ocuparam esse lugar de honra junto à nova mesa de jantar, na verdade duas, formando um longo retángulo de mármore Calacata sobre tubos de bronze, um design by Maluf inspirado em Mies Van der Rohe.
Também a tapeçaria vermelha do baiano Genaro foi passear na praia. E os biombos, que tem de sobra, lindos e curiosos como aquele pintado por Calabrone, seguem ajudando a aconchegar os espaços, ou funcionando como simples quadros. Em uma das paredes da sala de jantar, peça central desse apartamento onde os espaços se interligam naturalmente, segue a coleção de pratos do tempo em que a velha Cristaleria Prado se dedicou a fazer jogos de jantar em porcelana pintados por artistas famosos como Djanira e Di Cavalcanti. Os aparadores brancos com palhinha nas portas são inspirados nos de Julio Senna. E em outra parede verde, belas naturezas mortas de artistas brasileiros do início do século passado.
Fico sabendo que as pinturas de modelos nuas concentradas na area reservada à TV e à música, também pertenceram ao velho Bardi. Ali duas poltronas garimpadas em antiquario de Itaipava ganharam um print da Printz, com folhas enormes de cacau sobre fundo claro. Folhas verdes rimando com as paredes verdes.
Na area central, pequenos bancos aproximam a grande mesa de centro ( na verdade duas em sequencia) de Joaquim Tenreiro dos dois grandes sofas de couro preto chesterfield colocados frente a frente.
Esculturas e pinturas de Augusto Rodrigues, Iberê Camargo, Oswaldo Teixeira, Wega Neri, Darcy Penteado, Bella Prado, mais o painel de azulejos e os objetos de ceramica de Guido Tottoli que há muito fazem parte de sua coleção, ganharam charmosa companhia: o retrato de Danusa Leão por Di Cavalcanti vendido há tempos por sua filha Pinky Wainer que, por sua vez, ficou feliz de saber que hoje o quadro passou a pertencer ao amigo decorador com quem já fêz um pacto: recomprá-lo quando puder.
Meu olho bate nas chamadas bisbilhoteiras, aquelas bolas grandes ou pequenas de mercurio, prateadas ou coloridas, que era costume pendurar nas varandas das velhas fazendas para permitir ao capataz avistar ao longe quem gazeteava ou trabalhava. A maior delas, enorme e prateada, impera no hall de entrada. As outras foram concentradas sobre uma das mesas de frente de sofa. No teto da sala de jantar; três luminárias antigas Paraty, duas de vidro verde, suspensas do teto por armação e correntes de bronze, inspiradas naquelas azuis, tão típicas da cidade colonial. Os quatro abacaxis de ceramica no centro da mesa de jantar são portuguêses. No bar, disposto sobre mesa gate-leg ou “porteira”, um balde de gelo também em forma de abacaxi. Ou pássaros de louça brasileira. Ou figas, muitas, de madeira, altas, baixas, maiores e menores. Ou santos barrocos, pratos comemorativos do quarto centenário do Brasil. Ou o que trouxer lembranças de um toque tropical embebido da cultura européia que nos orientava o olhar e a educacão.
Nostalgia ou ousadia? “Fazer hoje algo aparentemente fora de moda, criar ambientes cada vez mais pessoais, se sentir acolhido e protegido por seus próprios pertences, por aquilo de que realmente gosta, pode ser mais ousado do que se cercar dos últimos lançamentos e de objetos comprados de acordo com um projeto pré-estabelecido. Se o objeto é bacana ele vai acabar encontrando o seu lugar no mundo contemporâneo.”
Renovar faz bem à alma. E já que o decorador prefere stay at home ouvindo “música de qualquer tipo, mesmo que a TV esteja ligada” a cair na intensa vida social paulista, os livros continuam sendo essenciais, assim como os cd’s, os objetos, os quadros e móveis carregados de sentido e de histórias para contar.