Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
21 de novembro de 2010
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EXISTIR NA MEMÓRIA -(Wesley Duque Lee)



Maria Ignez Barbosa

Wesley Duke Lee costumava dizer que a casa onde vivia era sua memória viva. Carregada de lembranças, serviu ao mesmo tempo de morada, ateliê, galeria e chegou a abrigar no jardim uma oficina de molduras. Múltiplo e de difícil definição foi também seu dono e criador, que nesses domínios meio “happening”, meio “instalação”, meio caixa de surpresas, viveu, amou, agitou, polemizou e muita arte construiu. Pé direito alto para abrigar as obras de grande porte, refletores de teatro, um macaco de pelúcia no lustre da sala.
No jardim japonês invadido por plantas tropicais, a velha piscina virou lago de carpas com cascata de mármore e bustos de gesso espalhados pelo chão.
Dentro de casa, de alto a baixo paredes cobertas de quadros e gravuras, mesas cheias de pequenos e grandes objetos com histórias para contar, segredos para guardar e que não podiam ser deslocados nem por suas mulheres que lá viveram. Fotografias, bilhetes, dizeres e pensamentos. Dono de seu próprio mundo, sabia o lugar de cada coisa, cioso em preservar a memória que veio a fugir-lhe nos últimos anos de vida.
No ateliê, muitas vezes um longo convívio com suas criações. Por escolha, a poeira era parte integrante de suas instalações.
Wesley Duke Lee se dizia um realista mágico. Para os amigos, críticos e biógrafos, o artista plástico que ganhou na Bienal de Tóquio em 1965 um prêmio que lhe abriu muitas portas, inclusive a possibilidade de expor na Bienal de São Paulo onde por seis vezes seus trabalhos haviam sido recusados, foi um pioneiro da linguagem contemporânea nas artes no Brasil. Atualizado sobre o que se passava fora, é visto por muitos como o “pop daddy” dos pop brasileiros como Antonio Dias, Gerchman e Vergara.
Um mestre da nova figuração,Wesley ficou conhecido por ser o autor do primeiro happening encenado no Brasil, em 1963 no São Sebastião Bar, e por ter liderado, com Nelson Leirner e mais quatro artistas, o movimento REX, que pretendia, ao excluir as galerias de arte do processo comercial, conferir ao artista, em seu espaço próprio, o papel de divulgar e vender o próprio trabalho.
Foi num desses eventos ocorridos nesta casa construída de forma quase artesanal em terreno que ganhou do avô, que Wesley, apaixonou-se pela segunda mulher, a mais tarde marchand Luisa Strina. Fascinado pelos brincos Pacco Rabane que portava, insistiu que ficasse com uma de suas obras apenas pelos trocados que tinha na bolsa.
No interior da casa, o bar “art nouveau” se confundia com a cozinha e a sala de jantar. A direita, num espaço único que nos anos 60 já tinha jeito e cara de loft, a pequena biblioteca com escada sem corrimão. No andar de cima, como no jardim, a marca nipônica, gosto adquirido nos tempos de solteiro no Japão. Tatames em lugar da cama tradicional, papel de arroz nas paredes e nas portas de correr.
Coletes coloridos, terno branco, suspensórios, cartola, chapéu de panamá, um MP Lafer made in Brasil que hoje pertence a Cláudio Tozzi. Sem dúvida um excêntrico, Wesley Duque Lee soube construir estilo e “personna” próprios. Não raro na contramão, podia estar à direita quando a maioria dos artistas seguia à esquerda.
Sua morte recente, aos 78 anos, e a criação do Instituto Wesley Duke Lee, uma iniciativa da sobrinha e também artista plástica, Patrícia Lee, herdeira e guardiã de sua imagem pública, certamente hão de contribuir para que Wesley Duke Lee encontre o seu verdadeiro lugar no panteão dos grandes artistas brasileiros.