Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
01 de abril de 2011
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JACQUES GRANGE

O ÚLTIMO DOS GRANDES

Jacques Grange é um homem descontraído, elegante e decididamente plural. Os anos não lhe roubaram o charme, a energia nem a agilidade. Conversar com ele é divagar sobre qualquer tema. É prazer e também aprendizado.  Com leveza, ele pode discorrer sobre pessoas e frivolidades parisienses e internacionais para, logo em seguida, emanar erudição, humanismo e seu extraordinário saber sobre a história do décor e das artes decorativas.

Embora fiel à tradição e ao classicismo, nunca deixou de se renovar e de se encantar com novos criadores, de estar antenado com o contemporâneo e de colecionar o que de mais belo e original encontrasse para si e seus clientes. Nas pegadas de Madeleine Castaing, Marie Laure de Noailles, Henri Samuel e Yves Saint Laurent - com os quais  aprendeu sobre gosto, audácia, poesia e liberdade -  pode-se dizer que Jacques Grange é o último dos grandes, aqueles estetas capazes de um trabalho atemporal e desvinculado de modismos.

Seus projetos tem o mesmo esmero e o perfeccionismo da alta-costura e revelam o talento do decorador para traduzir com arte o desejo de seus mais variados clientes que vão da  Princesa Caroline de Mônaco à milionária Madame Bettancourt, dona da L’Oreal passando por François Pinault, Valentino, Pierre Bergé e tantos outros mais e menos famosos.
Grange, tanto pode transformar um conhecido hotel nova-iorquino como o Marks em um dos mais elegantes e chiques de Manhattan, como  dar vida nova a um palácio europeu respeitando o seu estilo e a sua época. Pode fazer um apartamento em Nova York com ares contemporâneos e arrojados e também um iate, como aquele construído em 1925 para a família Renault, que ele re-decorou no espírito do período, mas agregando conforto e descontração. Ou uma mansão na Provence  inspirado pelo gosto de seus proprietários, pessoas apaixonadas pelo Mediterrâneo, pelas artes e pelos artesãos. Com rigor clássico - discretos frisos dourados demarcando as paredes e móveis século XX – uniu  contemporaneidade e pedigree num apartamento para um casal de colecionadores irlandeses em Paris. E numa casa em Londres, em cumplicidade com a sua dona, soube homenagear o feminino e a beleza criando um banheiro que evoca a Índia dos Marajás e o Egito de Cleópatra.
Incansável, Jacques Grange visita os mais variados países e continentes sem descurar de seus princípios: trabalhar cada detalhe, levar ao máximo a busca da perfeição, evitar a nostalgia, não imitar ninguém – nem a si mesmo.

Esse levar mundo afora os postulados do tradicional “gout français” que desde o século XVIII dita sobre requinte e harmonia,  já lhe valeu uma condecoração do governo francês e lhe garante estar no panteão dos mais requisitados decoradores do mundo.

Como consegue viajar tanto e o que anda fazendo ultimamente?
JG- Quando crio tenho muita energia. Estou com projetos em Nova York, Londres, Tel Aviv, Itália e Paris, projetos privados de arquitetura e, no momento, estou também desenvolvendo uma linha de produtos para a casa; lençóis, toalhas de mesa, copos, pratos, pequenos móveis, tapetes, tecidos, velas perfumadas e outras coisas mais.

Em que medida, para o sucesso do projeto, é importante a relação entre o decorador e o cliente? Qual sua atitude? Você “escolhe” os seus clientes?
JG- Não, eu não escolho meus clientes. Eles vem a mim e fico muito sensibilizado que venham a mim. E quando chegam até mim é porque já fizeram uma certa escolha. Depois a relação se estabelece, ou não, em função do projeto. A partir daí somente o meu desejo é o que vai contar.

Sei que era um grande amigo de Yves Saint-Laurent e que o ajudou em suas múltiplas casas. O que um trouxe para o outro? Como se fazia essa troca no campo do gosto e da estética?
JG- Foi uma relação de trinta anos, extremamente rica. Ele me deu muito. Com ele desenvolvi o gosto pela perfeição.  Ele esperava um grande profissionalismo de minha parte e também das empresas que executavam os projetos.
Juntos, como ponto de partida,  dividíamos sempre a idéia do cenário e a atmosfera que desejávamos. Para isso bastava às vezes apenas algumas palavras. E assim partíamos os dois para uma nova história estética. 

Quais foram os seus mestres na vida e no décor? Quem lhe ensinou, quem lhe ajudou, digamos, a “olhar” ?

JG-  No plano do décor, da cultura e do gosto pela arte, primeiro foi o meu encontro com os Noailles. A seguir o meu encontro tão determinante com Yves Saint-Laurent, que me passou os conceitos de gosto e liberdade. Depois, quando trabalhei com o decorador Henri Samuel e o grande antiquário Didier Aaron, aprendi mais sobre o classicismo.
Dar vazão à minha curiosidade sobre arquitetura, arte e criação foi como se eu estivesse aprendendo uma língua estrangeira. Quando você tem o vocabulário você pode expressar o seu gosto e o seu olhar.

Você acredita que se pode nascer com um olhar privilegiado ou o gosto se aprende? O olho pode ser treinado? Como definiria o seu gosto?

JG- A gente nasce com um dom. O meu é visual, tenho essa sorte. O gosto se aprende desde que se tenha sensibilidade e abertura a todas as formas de expressão.
Gosto é harmonia.

O que faz para estar sempre em dia, antenado, transitando entre o antigo e o moderno?
JG- O meu motor é a curiosidade e a cultura. A gente tem um filtro pessoal e faz as nossas escolhas.

Você teria aprendido com Henri Samuel que o décor deve revelar o cliente e que o decorador deve se manter na invisibilidade. Seria esse o segredo de seu sucesso?
JG- Invisível não seria bem a palavra. Mesmo que as minhas expressões não sejam totalmente invisíveis, elas são reconhecíveis. É de forma diferenciada que eu abordo cada projeto. Eles serão tratados de acordo com o seu contexto, com o lugar e levando em conta muitos outros fatores.Uma casa do século XVIII deve ser respeitada. Não posso tratá-la da mesma maneira que trato um apartamento em Nova York ou uma casa na Itália. É necessário respeitar os lugares e os magnificar. Nunca destruí-los, maltratá-los. O sucesso verdadeiro é o prazer de habitar os lugares inventados por nós e verificar  que esses lugares não perderam a sua atualidade.

Você já declarou que decorar é ao mesmo tempo assumir risco, fazer poesia e construir um estilo. Um comentário?
JG- Assumir riscos é saber se questionar e partir para outros meios de expressão. Não saberia dizer se tenho um estilo. Gosto de misturar objetos e móveis dentro de uma arquitetura rigorosa. Não gosto de universos frios, aqueles muito “design”. Amo  o conforto, amo a harmonia e detesto o que é enfadonho.

Você é considerado por muitos como o maior decorador vivo. Ser francês e ter no sangue a cultura e o gosto seria um “plus”?
JG- Fico orgulhoso com essa frase. Acho que ser francês é ter o sentido de harmonia, mas só será um “plus” na medida em que nos mantivermos de olhos abertos para outras culturas.