Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
20 de julho de 2012
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A ARTE DE ENGANAR O OLHAR



Conta a história que o artista grego Zeuxis, no século 5 a.C, numa competição com o colega Parrásio, pintou uvas tão perfeitas que passarinhos se puseram a bicá-las. E que o próprio pintor se deixou enganar quando acreditou que o quadro do competidor estava ainda embrulhado quando na verdade simulava uma embalagem.
São histórias que nos provam que o fascínio pela ilusão sempre foi da natureza do homem, o que, por sua vez justifica que por tantos séculos a essência da arte tenha sido a imitação e o mimetismo, critério que pavimentou o caminho para o desenvolvimento de técnicas da ilusão. Mostram também que o exercício virtuoso de como melhor enganar e surpreender o olhar é bem anterior à Renascença, ao Maneirismo e ao período barroco que tanto ampliaram e abusaram das técnicas da perspectiva e do claro-escuro.
Mesmo que com diferentes suportes ou propostas, seja na arquitetura, na moda, nas artes decorativas ou na publicidade, os criadores nunca abandonaram o gosto de brincar com o falso e com a ilusão, tanto que o trompe l’oeil moderno é hoje, como se pode ver em muitas cidades europeias, um certeiro atrativo turístico.
No mundo do décor, esta enganação pode surgir sob a forma de pastiche ou de ilusão ótica. Um papel de parede pode imitar azulejos persas ou portugueses, fingir madeira, simular tijolos, mármore, palha, capitone ou o que a imaginação desejar. E belas pinturas murais podem nos mostrar paisagens através de falsas janelas ou nos fazer esbarrar numa porta que não conseguiremos cruzar. A cerâmica pode imitar o jaspe, as pedras raras, o porfírio e o ouro. O linóleo pode simular o mármore ou um assoalho de madeira. E muitos objetos podem nos enganar em relação à função ou ao material com que são feitos, tal como o banco que finge ser uma pilha de livros e cujo interior é vazio. Ou o prato de cerâmica contendo um apetitoso repolho que não poderá ser comido pois é feito de cerâmica.
Para além da pintura, os efeitos de ilusão baseados nos mecanismos da visão sempre foram usados por artistas, arquitetos ou artesãos talentosos para perturbar a captação da realidade.
Na arquitetura, por exemplo, quadratura é o nome do tratamento dado a forros e paredes com o sentido de alterar visualmente as dimensões do espaço, um efeito trompe l’oeil típico do período barroco.
Nos grandes museus, como a National Gallery de Londres, os quadros que mais atraem o público são aqueles que nos intrigam com detalhes que perturbam o olhar e nos fazem ir de um canto a outro tentando buscar explicação para algum enigma. Não sem razão, portanto, uma das obras mais visitadas do museu é o “The Ambassadors” de Hans Holbein, de 1533 que retrata os jovens Jean de Dutenville de 29 anos, Embaixador da França na Inglaterra e Georges le Seve, de 25, bispo de Lavaur. Ao fundo, simbolizando a mortalidade, há uma imagem distorcida de uma caveira que só poderemos descobrir se nos colocarmos em um determinado ponto à direita do quadro.
Tanto que qualquer exposição que trate da tensão entre o olhar e a realidade é certeza absoluta de bilheteria. Basta dizer que “Arte e Ilusões”, mostra realizada em Florença entre há dois anos no Palazzo Strozzi com trabalhos do século 12 ao 19 teve filas de dobrar quarteirão. Além de obras de Mantegna, Tiziano e Veronese e do famoso quadro de Scarabattolo, o “Opificio dele Pietre Dure” de Domenico de Remps de 1600 que mostra dentro de um grande gabinete a coleção particular da família Medici, havia esculturas tridimensionais, porcelanas imitando frutas e móveis que escondiam surpresas.
Para quem não pôde usufruir dessa oportunidade, uma deliciosa mostra em Paris, no Museu de Artes Decorativas, composta apenas de peças do próprio museu, a maioria delas jamais ou raramente vistas, estará à sua espera até novembro de 2013. Chama-se “Trompe L’Oeil, Imitations, Pastiches e Illusions”. Por meio de 12 temas como “Sombra e Luz”, “Otica Hipnótica”, “Fazendo de conta” ou “Isto engana enormemente”, nosso olhar é levado a um delicioso passeio por vitrines carregadas de intrigantes objetos, pinturas, fotografias, brinquedos, papeis de parede e pequenos moveis que surpreendem e, sobretudo, tem o dom de nos encantar e divertir.