Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
15 de dezembro de 2012
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PASSADO IMPERFEITO



Em seu próprio décor, o carioca Sergio Zobaran, que há oito anos trocou o Rio por São Paulo, não busca a perfeição, muito menos fórmulas garantidas como a do bege total. Bem ao contrário, foi capaz de trocar com uma amiga um sofá moderno por um velho de veludo cinza de sessenta anos, peça mestra no apartamento térreo de 120m2, adquirido há dois anos em prédio de estilo neoclássico de 1948, na Av. 9 de Julho.
Ali, o jornalista, curador da Mostra Black e consultor de comunicação na área arquitetura e decoração, procurou dar um ar industrial ao jeito afrancesado do projeto original. Retirou oito portas de madeira e as substituiu por três de vidro. A luz natural passou a entrar mais abundante através de janelas acústicas. Os tacos são os originais em peroba rosa e os que foram acrescentados vieram da casa do vizinho que reformava geral. Ganharam, no entanto, sinteco cinza claro. O segundo quarto fundiu-se à sala e o da empregada foi transformado em lavabo. Em todos os ambientes, quarto principal, banheiro, copa e área de serviço uma das paredes foi descascada de modo a que o tijolo ficasse aparente e pintado de branco: “Se deixasse todas descascadas iria parecer uma fazendinha. Preferi uma só em cada ambiente e deixei no cimento algumas colunas e vigas.”
Desde o tom chumbo do Hall, o cinza impera. Pendendo do teto, um lustre de Gaetano Scolari, descoberto na feirinha de domingo do Masp, faz as honras da casa junto ao lambe-lambe de Pinky Wainer. E por sugestão dos amigos Nórea de Vitto e Beto Galvez a quem Sergio convidou recentemente para uma repaginada na colocação de seus pertences, também a parede principal da sala foi pintada na cor escura.
Fuçar antiquários, casas de leilão e feiras de antiguidades é paixão desde garoto; atividade quase diária do dono da casa. Foi assim que descolou por preços convidativos preciosidades como os espelhos Sol dos anos 60, a mesinha lateral com tampo de tronco onde pousa a luminária em feitio de aranha e feita de cristais, o sofá preto de feltro inglês trazido para protótipo em loja que fechou, a luminária de teto de Toni Parsinger da segunda sala e o biombo composto por diferentes amostras de treliça que compunham os muxarabis dos tempos coloniais. Isso sem falar na coleção de cadeiras que constantemente migram de um canto a outro da casa. Difícil é escolher onde sentar. Se na Kilim ou na Mole de Sergio Rodrigues de freijó e couro cinza que já morou no Palácio do Planalto em Brasília. Se na da Claudia Moreira Sales dos anos 90, na do Aurélio Martinez Flores a la Mackintosh ou na Bertoia dos anos 80 da Forma. Se na escandinava Falcon 784 de couro preto com seu banco, na de Aida Boal em madeira clara ou se nos banquinhos com pés de ferro de Ricardo Fasanello.
Nas paredes, entre outros mais e menos famosos, obras de artistas amigos como Sylvia Martins, Walton Hoffman e Claudia Jaguaribe. Sobre a mesa de frente de sofá com base de tronco e tampo de vidro, uma escultura de carnaúba do Piauí de José Zanine Caldas, comprada em 1975 quando Zobaran, jovem jornalista no Rio, foi entrevistar em sua casa o saudoso arquiteto autodidata.
Em suas andanças por São Paulo, Sergio muito aprendeu sobre a história da decoração local onde as diferentes colônias de imigrantes impuseram estilos de origens as mais díspares. De S. Dinutti, o italiano que tanto agradou a colônia árabe que, com seus móveis de luxo duvidoso decoravam a casa inteira, tem uma mesa curiosa. E para abrigar não só as muitas peças escolhidas a dedo na cidade que adotou para viver, mas também a sua coleção de amigos, alugou o sétimo andar do prédio, um apto de 90 m2. – Ali está a única cozinha da casa e a sala de jantar.