Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
Março de 2010           « anterior |


Neo Barroco

No mundo neobarroco, mais nunca é de menos. Entenda quando, como e onde surgiu esse expressivo movimento.

Tal qual os antigos Bárbaros chegando às portas de uma Roma decadente, surgiu em Paris nos anos 70, em plena apoteose do high tech e do funcionalismo, um grupo de jovens artistas decididos a retomar o barroco sob uma ótica pós-moderna, revalorizando o artesanal contra o excesso de produtos industrializados na decoração, e propondo o uso de materiais primitivos e naturais como a ráfia, a pele de animais, galhos, terracota e gesso. A idéia era injetar sonho e fantasia no dia a dia das pessoas, até então sob a égide do menos é mais.
Com a queda do muro de Berlim, num momento de assimilação de povos e culturas, de avanço na concretização da comunidade européia e de uma Europa carregada de uma nova energia que já se fazia sentir no campo da estética e da criação, o movimento ganhou força pela mão de artistas como Elizabeth Garrouste, Mattia Bonetti, Eric Schmith, Frank Evanou, Hubert Le Gall, Borek Sipek e Andre Dubreuil entre outros. Não importa se rotulados novos bárbaros, punk românticos, neo modernos, neo naturalistas, bricoleiros ou primitivistas. O fato é que, de forma contraditória, dispensando a simetria, adotando formas ingênuas, agregando humor e sem limites para a fantasia, todos bebem no barroco tradicional e se deixam inspirar por culturas as mais diversas e pela possibilidade de materiais inesperados.
Uma mesma mesa pode ter pés desiguais, e uma luminária três pernas e braços diferentes. Um aplique de parede pode parecer explodir com tubos em diversas direções e um espelho pode ser composto de fragmentos disparatados.
Apesar de pertecerem ao mundo das artes decorativas, as peças criadas por esses autores adentram o terreno das artes plásticas. Daí o surgimento de espaços dedicados a esse movimento estético com viés anti-burguês, que esfatiza o espetáculo e o teatral e reage contra o gosto maçante imposto pelo mercado. As galerias pioneiras e até hoje fiéis a essa tendência e seus criadores são, em Paris, a “En Attendant les Barbares” a “Neotu”, e a “Avant Scene” e em Londres a David Gill.
Curiosamente, a primeira exposição de Elizabeth Garrouste e Mattia Bonetti aconteceu em 1981 na famosa Maison Jansen que ainda tentava sobreviver depois de quase dois séculos vendendo o que de mais chique e criativo surgisse nas artes decorativas para o mundo endinheirado. Ali, nesse templo sagrado e legendário, os dois artistas que até há bem pouco tempo dividiam o mesmo atelier e assinavam Garrouste et Bonetti, quiseram homenagear os designers originais do passado, explorando justamente as possibilidades que eles podiam oferecer aos criadores contemporâneos. Foi logo depois que, sem conseguir reerguer-se, a Maison Jansen fechou definitivamente suas portas.
O movimento, no entanto, seguiu seu caminho e atingiu uma sofisticação fantasista que não se via em Paris desde os anos 30, quando no setor da decoração ditavam os tão chiques e influentes Emilio Terry, Jean Michel Frank, Serge Roche e Diego Giacommetti.
O que se viu foi a entrada desse neo barroquismo na area de clubes, restaurantes e outros projetos ligados ao mundo do modismo e do efêmero, o que os criadores tidos como sérios pareciam antes esnobar.
O primeiro grande projeto da dupla G&B foi a ambientação do Club Privilege na boite Palace, a quintessência então do chique. Valeu. Logo foram convidados por Christian Lacroix para repaginar a sua Maison de Costura. Alí, deram asas à extravagância. Criaram cortinas com estranhos barrados, portões de ferro, estampas, moveis, maçanetas e detalhes de iluminação com formas orgânicas de tal maneira impactantes que terminou por influir na produção dos vidros de perfume e na bijuteria do costureiro.
Hoje, uma decoração feita de excessos ou anti-minimal não surpreende nem espanta. Haja ver o sucesso de Philippe Starck com seus inúmeros hoteis e restaurantes, ou do neo decorador e cineasta Julian Schnabel, conhecido artista plástico, com seu décor do Gramercy Park Hotel em Nova Iorque.
O interesse dos neo-barrocos pelo arcaismo é certamente deliberado. O passado estaria sempre dentro de cada um de nós. Bem jovem, Elizabeth Garrouste já dizia: “Desenhamos para provocar nas pessoas o sonho. Não acredito em progresso no desenho. Você só tem como alternativa repetir o que ficou para trás ou então propor algo mais, tentar criar um mundo diferente. São peças concebidas como se imagina uma coleção de moda, baseadas em uma idéia e feitas para serem desejadas.”
Desse conceito surgiram moveis que lembram a era Neandertal com pedras falsas ou verdadeiras, mesas de ferro batido, cadeiras com saias de ráfia como que prontas para um hula-hula e a poltrona de encosto alto em bronze patinado e couro de vaca assinada G&B, sobre a qual, o excêntrico consultor de estilo e crítico inglês Stephen Calloway, escreveu: - Impôs-se tal como o trono de um chefe tribal avançando nas portas de Roma nos últimos dias de seu declínio”
Mesmo que com sensualidade, humor e muitas vezes lembrando imagens das revistinhas dos Flinstones, essas criações, inspiradas na fantasia e trazendo em seu bojo as marcas do luxo e da sofisticação francesas, não deixam de ser funcionais. Também um novo horizonte na utilização de cores, formas e texturas se abriu para a indústria do mundo das artes decorativas. E predios públicos como o Ministério da Cultura dad a França já se orgulha de seu saguão e escadaria neo barrocos, um projeto da dupla G&B.
Sem falar que, já icônicas, muitas dessas criações fazem parte das coleções de importantes museus como o Beaubourg, o Grand Hornu, o Musee des Arts Decoratifs e o Moma em Nova Iorque.