Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
29 de setembro de 2010
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Bendito Seja o mestre!

De passagem pelo Brasil, Ricardo Lagorreta, principal alicerce da arquitetura contemporânea no México, encontra-se com Casa Vogue

Belo, ágil e elegante, difícil acreditar que Ricardo Lagorreta, acaba de completar 79 anos. Fácil imagina-lo no esplendor da junventude, quando, ainda estudante e desejoso de conhecer e de se aconselhar com Walter Gropius, entrou sorrateiro pela cozinha do hotel na cidade do México onde se hospedava o metre da Bauhaus. Ouviu que, independentemente de onde escolhesse viver e trabalhar, tratasse de antes conhecer muito bem a própria pátria. Depois, que viajasse pelo mundo. Esse, o verdadeiro aprendizado. No lobby do Fasano em São Paulo, juntos buscamos um canto sossegado. Gostou que eu não estivesse munida de gravador. Assim poderíamos de fato conversar. Num ambiente onde predominam os marrons e os tons de cobre, pergunto se sente falta de cor. Penso nos exuberantes tons de azul-anil, no rosado e no açafrão tão reconhecido sua arquitetura. O que ouço são elogios ao hotel, aos profissionais brasileiros, de Isay Weinfeld e Oscar Niemeyer, e ao Brasil, que lhe encanta visitar. Passa entusiasmo, doçura e sabedoria. “Do que não gosto de fazer e n~qao fazer nada. Presisamos estar sendo sempre desafiados. Só me interessa fazer o que vai trazer felicidade. É melhor dar do que receber. Vivemos por demais rodeados de conforto. Isso limita a nossa imaginação. O cliente é a razão do projeto. É ele quem traz as informações e é para ele que desenhamos. Se tivesse de escolher entre um cliente e um arquiteto, escolheria o cliente. Atrás dos grandes projetos há sempre grandes clientes.”

“não basta que a casa seja fotogênica, que sai bem na revista. Tem que fazer felizes adultos e crianças. É preciso que nela a luz penetre, atravesse e ilumine cada canto, não importa se vindo do sul ou vindo do norte, mas de forma natural”





Do outro lado da prancheta
Para ele, a boa relação com o cliente é o que pode haver de mais valioso, pois acaba se transformando em ternura e amizade. No Brasil, onde projetou uma fazenda, duas casas e São Paulo e uma de praia na Bahia, diz ter tido essa sorte. O motivo de sua visita foi justamente a festa de 50 anos de um cliente que, por coincidência, fazia aniversário no mesmo dia do seu. Para o evento, idealizou uma cobertura de lona para a piscina e o jardim, o teto em tom de céu azul quando anoitece, e paredes num vermelho muito intenso, cores emprestadas de dentro da casa. Pé-direito altíssimo, aberturas para entre o verde, espaços internos e externos de quase catedral. Para Ricardo Lagorreta não existe arquitetura de interiores. Basta cobrir um espaço– externo e ele passa a ser interno. Arquitetura, paisagismo, arte e design fariam parte de um ó mesmo sistema. O importante é estar em equipe, haver respeito mútuo. Em São Paulo, deixou-se encantar pela designer Claudia Moreira Salles: “É uma das desenhistas de mais talento. Faz um trabalho que é complementar à arquitetura, que enriquece e contribui. Gostaria muito de fazer com ela algo no México”.
Brasilidades
Vê identidades entre o seu e o nosso país. A arquitetura mexicana e a brasileira seriam complementares: “Temos problemas parecidos. No México, resolvemos questões de uma forma mais trágica, enquanto vocês no Brasil fazem isso com alegria. Nessa mistura há um equilíbrio. Em tudo vocês mostram paixão pela excelência, na pintura, no futebol, no desenho. Acho que no México perdemos isso. Para mim a excelência esta no pensamento, não no dinheiro”. Sobre a questão da sustentabilidade, tem idéias muito claras: “Não razão para incorporarmos o que é usado nas construções no norte da Europa. É preciso que ela se baseie num sentido básico comum. A arquitetura moderna saiu atrás da alta tecnologia, mas é preciso que se volte a usar os materiais locais. A globalização permitiu que usássemos metais, mármore e elementos de fora, além do fato que os fabricantes se aproximam de nós querendo que façamos uma arquitetura de acordo com o material que produzem”.





Reaproveitamento de idéias
Acha que os latino-americanos tem talento de sobra para criar sua própria arquitetura e que não faz sentido usarmos pisos de aço, por exemplo, quando podemos fazer lindos ladrilhos de cimento, hoje um material sustentável: “Temos de reverter tudo isso, usar material daqui e adaptado ao nosso clima. Esse caminho de volta não deveria ser visto como nostalgia, mas como resultado de um aprofundamento cultural. Não se trata de uma regressão, mas de encontrar soluções atuais que tenham a qualidade de serem sustentáveis, que carreguem suas próprias verdades. O problema é que a tecnologia progrediu mais rapidamente que o pensamento e imaginação. Com isso nos desviamos do caminho natural”.

Multicoloridos
Para RL, a arquitetura não tem com fugir da cor: “É um elemento muito positivo. Está ligada a cultura e aos hábitos de um povo. Nos países latinos usamos a cor mais livre e intuitiva. Gosto muito da maneira como Niemeyer usa o azulejo branco e azul. Já os nórdicos usam a cor de forma muito mais intelectual.Uma casa de praia que estamos fazendo na Grécia será branca por fora, como pede o entorno, mas terá cores em seu interior”. Outra marca do arquiteto são os espaços volumosos, grandiosos, e de impecáveis proporções. Para aí chegar não haveria regras. Vai da intuição e do olhar. Fundamental é a maquete, que RL não dispensa: “Não basta que a casa seja fotogênica, que saia bem na revista. Tem de fazer felizes adultos e crianças. É preciso que nela a luz penetre, atravesse e ilumine cada canto, não importa se vindo do sul ou do norte, mas de forma natural”. A água, fluida, sonora e sensível aos efeitos da luz do sol, é outro elemento essencial de sua arquitetura: “tratá-la como uma jóia, de forma delicada, faz parte da tradição islâmica, uma influência árabe maravilhosa que nos chegou através da Espanha”.


Arquitetura democrática
Legorreta acha que a maioria dos arquitetos peca por não se debruçar sobre a questão de habitação popular. Faz uma meia culpa: “De fato é uma falta nossa. Usamos as desculpas de que se trata de uma área onde há muita política e ai nos afastamos. Deveríamos intervir muito mais. Excelentes arquitetos inovando em arquitetura de baixo custo”. O arquiteto se diz abençoado Deus, pois caiu-lhe do céu ter um filho trabalhando ao seu lado. Legorreta & Legorreta é como passou a chamar-se o escritório quando Victor, hoje 42 anos, ali entrou trazendo juventude, questionado e impondo novos desafios. Projeto nenhum sai do L&L sem que ambos estejam de acordo. É pacto entre pai e filho. Não sem motivos, RL parece fazer juz a outra máxima do alemão Walter Gropius: “Trabalhem e vivam como se fossem viver eternamente, porque se suas idéias são boas, quando se forem, alguém a de agarrar a bandeira e seguir em frente”.

Sem paradas
De São Paulo Legorreta voaria no dia seguinte para a Tanzânia. O convite para projetar uma universidade a pedido do Aga Khan era a razão da viagem. Ao lado do filho, iria se embrenhar pelo país atrás de material e de alguma referência arquitetônica nessa região quase desétrica do continente africano.