Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
29 de setembro de 2010
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Visitando Mister Gollut



Falar dos amigos é sempre um prazer, principalmente quando só temos coisas boas a dizer. Pois de Christophe Gollut tenho lembranças as mais divertidas, de nossos passeios por feiras de antiguidades, onde descobríamos preciosas pechinchas, de seu olhar apurado e sensível, da língua afiada, sempre a par das últimas fofocas, de nossos papos sobre a cor branca, que aqui funciona, mas, na cinzenta Inglaterra nem pensar. E até do jantar que nos ofereceu em seu minúsculo apartamento com cozinha escondida num armário, que é suntuoso e descontraído ao mesmo tempo, e tão sofisticado quanto intemporal. Impossível acreditar que naquele ambiente de luz suave e perfumado, ele tenha sentado dezesseis pessoas em duas mesas de oito, lindamente decoradas com porcelanas, peônias divinas, e velas em castiçais maravilhosos. Meumarido, eu era Embaixador do Brasil na Inglaterra, os príncipes de Kent, Michael e Marie Chrstiene, os Summers, Martin e Anne, hoje proprietário em uma casa em Puerto Garzon, no Uruguai, e outros tantos, como num conto de fadas vitoriano, nos deliciando com um “hake” no vapor em tapenade, salada de rúcula e a famosa sobremesa de quatro mil calorias por colher, feita de avelãs, chocolate e merengue, marca registrada do dono da casa. E com direito a um chazinho de gengibre que havia de queimar tudo o que ali fartamente se comeu e se bebeu. A decoração do apartamento, alheia alheia a modas e modismos, tem 21 anos de idade, e a rara qualidade de não envelhecer. Por muitos, o decorador é considerado um arquiteto “manqué” , pois adora transformar e re-configurar espaços grandiosos e de época. E apesar de criar mundos onde não cabe o design contemporâneo minimalista, Christophe Gollut, nascido na suíça e também dono de floridas casas de praia nas Ilhas Canárias e no Líbano, tem um clientela cativa eu só faz crescer e é considerado um dos mais bem sucedidos decoradores da Europa. Ao Brasil e a São Paulo já veio duas vezes. Aqui não perdemos a oportunidade de fazer junto um giro pela Feira do Bexiga. Adorou e prometeu voltar.

CHRISTOPHE GALLUNT não é mais um na multidão. O talento para reger situações novas o desviou dos caminhos comuns. Depois de colocar os sonhos sobre uma prancheta, o décor abriu-se como perspectiva para construir enredos mágicos. ”Sempre acreditei que decoração deveria durar pelo menos se anos”, diz. Há que mtorça o nariz para tanta sinceridade, mas o arquiteto não se incomoda.
Foi ele quem orquestrou a reforma da própria casa, transformando o living num espaço entre aberto. Configurada para interferir o menos possível nas áreas sociais, a cozinha foi trancafiada através da porta falsa quadros e arandelas do lado visível da ala de jantar. Comeste insight, ele equacionou um drama que ofusca o desejo de integrar as dependências apenas quando se faz necessário. “Existe um grande forno, tabuleiro e até uma gaveta de caixa jóia alçada à condição de porta utensílio”.
O imóvel de 1850, comprado no distrito de Kinghtsbridge há mais de uma década, precisou de adaptações para virar o lar imaginado pelo anfitrião. Nos interiores, duas cadeiras revestidas de veludo rosa e verde-limão foram propositalmente estacionadas na entrada. “Meu lado excêntrico é quase uma característica inglesa.” Longe dos tons escuros – e do pretinho básico que percorre suas obras -, as paredes realçam paletas quentes. A mise-en-scène se completa com biombo, mesas com tampo de pedra e estofados de tecidos bicolores reeditados por George Smith. O imobiliário ainda tem cômoda suíça e biblioteca maciça de mogno feita em Edimburgo, que recheia o salão com seus dois metros e meio de largura e outros cinco de altura. De volta ao living, os adamascados em ocre, vermelho e oliva refletem o espelho com fecho de prata e um dragão dourado. No dormitório, o jeito rústico lembra habitações franco-suíças do 19, enquanto os truques ilusionistas que esconderam fios e tomadas parecem sacados do fundo da cartola. E este é apenas um trecho do mundo enigmático de Christophe Gollut.