Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
21 de novembro de 2010
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LUXO EM LINHA RETA



Christian Liaigre já se acostumou a que o copiem. Ou melhor que tentem fazê-lo, pois embora seu estilo seja aparentemente reconhecível, não se trata de tarefa fácil. Com linguagem muito própria, unindo o luxo ao rigor da linha reta, suas criações, elaboradas com esmero e exímia mão de obra, embutem detalhes inimitáveis.
Christian Liaigre formou-se em Belas Artes em Paris no final dos anos sessenta. Aprendeu arte, cultura e o valor do artesanato. Os dez anos que passou criando cavalos no interior não prejudicariam a trajetória fadada ao sucesso no universo do design. Tornar-se um decorador "total", ou seja, ao mesmo tempo mestre em arquitetura, criador e designer desde moveis a maçanetas e ambientador de espaços ao mesmo tempo minimalistas e poéticos, deve-se ao esforço e talento próprios. Quando abriu seu estúdio em Paris nos anos oitenta, dispensando o supérfluo, impondo o cinza clarinho nas paredes, tons masculinos nos estofados, madeiras exóticas escuras nos móveis de linhas rigorosas e couro costurado à mão na melhor tradição francêsa da selaria, o look escandinavo louro e branco ainda pautava o décor moderno na Europa.
Dois livros, publicados em 2004 e 2007, editados pela Flammarion e pela Thames and Hudson, enchem os olhos com fotos de seus trabalhos. Não importa se iates no Atlântico ou no Mediterraneo; se enormes mansões em Genebra, Toronto ou na Galícia; se townhouses em Nova Yorque, lofts no Soho; se hotéis como o Montalambert em Paris e o Sereno em St.Barths, cabanas em Bora Bora, ou residências de famosos como Calvin Klein, Kenzo e Bryan Adam em qualquer lugar do mundo, fato é que a griffe Liaigre se impôs. Hoje, personificando o melhor do savoir faire et vivre frances, é membro do Cabinet Colbert, instituição-vitrine da excelência do país em matéria de criação e que reúne as mais importantes marcas do design, da joalheria e da moda da França.
Em Nova Yorque, em janeiro próximo, deverá ser inaugurada uma Maison Liaigre. E em andamento a ideia de um projeto em Sao Paulo, o que fará, quem sabe, que o criador visite o Brasil, país que ainda não teve a oportunidade de conhecer.
Liagre tem como um de seus mitos Luis XIV, o criador de Versailles, o monarca que primeiro percebeu o poder da imagem e fez com que, invejosa e embasbacada, as cortes européias se voltassem para a criatividade, a beleza, e a qualidade do que fosse Made in France. Isso apesar do silêncio, para Christian Liaigre , ser sinônimo de luxo e sua aspiração atingir a poesia no design como fizeram Brancusi e Giacometti.
Depois de muitos anos num apartamento no Marais, o casal se mudou para uma casa do século XVII na Rive Gauchee que surpreende os amigos que alí vão pois nela foram mantidos o estilo e a “boiserie” originais. Aqui ele conversa com exclusividade para CASA VOGUE
CV: - Embora admire a monumental criatividade que se atingiu em Versalhes no século 18, seu traço tem mais a ver com Brancusi e Giacommetti. Até que ponto estas figuras tem a ver com a sua formação estética ?
CL: Me sinto lisonjeado pelo que você diz. Esses dois artistas levaram o minimalismo para a frente com poesia . Dizer o essencial com pouco é o que tento conseguir.
CV: Qual a sua relação com o luxo, com a tradição do luxo e do requinte na França?
CL- O luxo é uma palavra engraçada já que às vêzes só o silencio pode ser um luxo supremo. Hoje as grandes marcas realçam o trabalho artesanal como um luxo enquanto que antigamente era simplesmente o amor do trabalho bem realizado. Eu sempre mantenho esse espírito de trabalho bem feito. Eis a razão pela qual o Comitê Colbert que junta as grandes casas - Hermés, Dior, LVMH etc me convidou para ser membro da associação.
CV: Você é um dos decoradores mais copiados do mundo, até porque seus móveis e soluções são aparentemente simples. Isso não lhe incomoda?
CL- A cópia é o preço (resgate) do sucesso e revela a falta de imaginação dos copiadores.
CV : O que mais o motiva, faz evoluir o seu traço, instiga sua criatividade?
CL- As fontes de inspiração são muitas vezes ligadas à cultura e às raízes de quem está procurando. Para mim, pessoalmente, a natureza e o mar são o que mais me inspiram e me dão aquele impulso. Não há nada que permita ficar inspirado, é apenas o vazio que gera.
CV: Poderia falar da importância da estética, do estilo e do conforto no nosso dia a dia?
CL- A importancia do gosto e da beleza é primordial. Gera harmonia e bem estar. A estética era a qualidade mais importante em toda a civilização grega antiga - hoje em dia não se espera mais isso......
CV- Como se dá a sua relação com o cliente? Você os escuta, atende a seus desejos ? Como consegue que eliminem o supérfluo?
CL- Cada cliente deve ser “educado” com simples conselhos e pelas evidências inerentes ao bom senso. Ignoro as recomendacões deles pois sei como funciona.
CV: É sabido que faz muitas casas de designers de moda. Alguma razão ou explicação para eles lhe preferirem?
CL- Os estilistas de moda são os clientes mais fáceis. Nossa relação é simples já que trabalhamos no mesmo sentido. Como essas pessoas tem um sentimento profundo do que precisa ser feito no que diz respeito às tendências, criações e escolha, com um simples desenho é fácil para elas compreender o que lhes apresento.
CV: Suas cores em paredes já foram mais neutras. Hoje é capaz de usar um vermelho ou um mostarda. Como se relaciona com a cor ?
CL- Não sei muito trabalhar com cores, por isso escolho aquelas que me fazem lembrar o sol. Do contrário o branco sempre me atrai. É o símbolo da pureza, da honestidade, do descanso
CV: Você se mudou não faz muito tempo para uma casa do século 17 na Rive Gauche. Como fez para renová-la mantendo sua integridade?
CL- A minha nova casa surpreende mesmo a quem me conhece. Está longe de ser um loft minimalista. A marcenaria do século XVIII, os lustres, enfim a base dela é toda muito bela e autêntica. Não faria sentido fazer modificações. Vez ou outra, no entanto, uma parede branca, rodapés pretos e um sofá reto podem rejuvenescer.
CASA VOGUE: Em seus projetos consegue equilibrar sofisticação e descontração? Como se dá essa magia?
CL- Um cozinheiro nunca revela as suas receitas... se o fizer estará mentindo.
CASA VOGUE: Sabemos que tem projetos em vários continentes. Que tipo de projeto prefere fazer?
CL- Tenho um fraco pelas residências. Uma ligação íntima nasce sempre com os clientes. Já os restaurantes e hotéis tem de ser mais “over design” . Hoje em dia não tenho vontade de lutar nesta categoria.
CV: Viajar muito não é problema?
CL- Viajar? Que perda de tempo! As viagens imóveis são as mais bonitas. No entanto é preciso mover-se de vez em quando para ver o que se faz por ai.