Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
21 de novembro de 2010
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AFINIDADES ELETIVAS



Uma grande pedra bruta de cristal no trinco da porta de entrada atiça a curiosidade. E na ampla galeria central, um banco de Sandra Cinto tem no lugar de um dos pés uma pilha de livros.
É como se estivéssemos invadindo uma caixa de surpresas. Ou melhor, encontrando um conjunto de volumes que suavemente se interligam, cada qual com características próprias, planos e materiais diferentes, mas formando um todo uniforme, ou melhor um claro interior onde o jardim da paisagista Isabel Duprat é presença por todos os lados.
Nesta casa projetada pelo arquiteto Isay Weinfeld, o degrau, para se passar de um nível a outro pode ser uma pedra bruta de granito apenas, ou simplesmente um bloco revestido de alumínio. Ora o chão é de cimento queimado, ora de tábuas corridas de aroeira não polida e esbranquiçada. Um desses planos chega mesmo a pousar sobre a água da piscina que mais parece um lago com algas e peixes e que se esgueira por baixo da sala de jantar.
A vida ali se passa ao rés do primeiro andar; quartos do casal e dos três filhos, salão, sala de jantar, TV, biblioteca, área de serviço, cozinha e pérgola contígua, exceto a sala de ginástica e a suíte de hóspedes, acessíveis por meio de escadas quase escondidas em dois diferentes pontos da casa.
Na biblioteca que junta madeira, pedra e cimento, os sofás ficam em nível rebaixado, e as estantes de livros logo acima das janelas, permitindo que a vista do jardim substitua as paredes. As publicações, grande parte sobre arte e artistas, refletem o gosto do casal pela arte contemporânea. E se referem aos muito artistas espalhados por qualquer superfície da casa, do chão ao teto: Valeska Soares, Carmela Gross, Tunga , Leonilson e Rodrigo Borges, para citar apenas alguns. Menos pelo valor, mais pela graça e engenhosidade do trabalho como, por exemplo, o da artista japonesa Rie que assina os espelhos à base de retrovisores colocados no banheiro social acima da pia revestida de alumínio, um desenho de Isay, que assina também outros móveis na casa.
No salão, sofás e cadeiras dos anos 50. Há mesas de ler e comer na cama transformadas em laterais. E em algumas poltronas, também anos 50, o revestimento é de tecido de pano de prato, assim como pode ser a original da loja a forração com veludo amarelão lavrado da chaise anos 70. Ir atrás de curiosidades, peças originais, trouvailles ou quinquilharias, como gosta de dizer a dona da casa, é hábito desde pequena; freqüentar feiras, brechós e lojas de antiguidade no Brasil e no exterior.
Seu olhar apurado se reflete em cada canto: nas almofadas com motivos sempre inesperados sobre o sofá da sala de TV como aquela em forma de mapa-mundi trazida da Bolívia, no rinoceronte e no hipopótamo garimpados num brechó, na toalha de mesa branca bordada de flores transformada em colcha na cama do casal, nos puxadores das gavetas de madeira dos armários da cozinha, díspares entre si. Ou no tapete todo feito com velhas calças jeans dos filhos no quarto dos meninos, ou na cortina branca unida por uma bainha aberta à sua metade cor-de-rosa e assinada por Mucky, uma artesã carioca.
Nada ali é banal, esperado, lugar-comum. Contígua à cozinha, uma pérgola para reunir a família quando faz calor e a dona da casa se dispõe a cozinhar. A mesa comprida é antiga, já foi de uma loja de flores e tem tampo revestido de metal. Em frente aos sofás da sala, o que se convencionou chamar mesa de frente, uma curiosa composição de dois bancos modernos de madeira intercalados por antigas caixas de vinho da extinta loja Jacaré.
Construir é muitas vezes experiência desgastante. Não foi assim com os habitantes dessa morada paulista. Bem ao contrário, afirma a dona da casa, feliz da vida sob o novo teto: “Foram dois anos e meio de prazer, de trabalho afinado. O Isay fez questão de primeiro nos conhecer melhor, a mim, meu marido, as crianças, nossos hábitos, gostos e, ao longo desse tempo todo, só trouxe soluções. Sabia ouvir e entender nossas necessidades. A casa foi como um filho que criamos juntos e que acabou chegando já maduro. Nos sentimos agora como se estivéssemos aqui há anos, numa casa vivida e totalmente com a nossa cara e onde nos sentimos livres para fazer o que queremos. Ele é um gênio.”
Isay, que pode se dar ao luxo de “escolher” seus clientes, concorda que trabalhar com pessoas criativas, com boas idéias, arte de primeira qualidade e peças de mobiliário interessantes facilita e ajuda a enriquecer o projeto: “O que mais quero é fazer uma casa com a cara do cliente, daí eu sempre repetir que não posso trabalhar para qualquer pessoa e nem poderia morar nas casas que faço para os outros. Isso justamente porque a casa nada tem a ver comigo mais sim com ele. Tem o meu olhar mas não a minha cara. Não nego que o segredo do meu talento talvez seja saber ouvir, escutar. É fundamental. O ego do arquiteto não pode ser maior do que aquilo que está fazendo. Não se trata de fazer uma obra prima”
Isay não se importou quando as crianças decidiram pintar de rosa e azul algumas paredes em seus quartos: - “O que mais desejo é que se sintam felizes.”