Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Casa Vogue
 
24 de novembro de 2015
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HARMONIA EM UM TOM SÓ

APÓS REFORMA INTENSA, A CASA PROJETADA POR UGO DI PACE NOS ANOS 1970 ESTÁ PRONTA PARA ATRAVESSAR O SÉCULO 21. NELA, OS NEUTROS TÃO BEM ORQUESTRADOS POR ARTHUR CASAS MANTÊM A DISCRIÇÃO, FUNDEM INTERIOR E EXTERIOR E EMOLDURAM ÍCONES DO MOBILIÁRIO MODERNISTA AMERICANO

FOTOS RICARDO LABOUGLE/DIVULGAÇÃO

Da fachada, a impressão é de uma casa sem portas ou janelas. O bege-areia predomina. Difícil diferenciar o que é metal, concreto ou madeira, pois tudo se funde de maneira harmoniosa numa mesma cor. Aos poucos distingo a grande porta da garagem e, na lateral direita, aquela que vai nos levar à entrada propriamente dita. E tento decifrar o que pode estar por trás das formas onduladas na parte superior, feitas de ripas verticais de madeira clara, vazadas como os muxarabis de antigamente, que permitiam às mulheres ver a rua, mas impediam que fossem observadas. Do caminho estreito que nos leva a descobrir o interior dessa morada paulistana de 750 m2 de área construída já se vê o espelho-d’água, que se transforma em piscina, e os muros que circundam o terreno cobertos por jardins verticais. Bem século 21, prático e funcional em todos os sentidos, não é fácil acreditar que este projeto assinado por Arthur Casas para um casal amigo é, na verdade, o da reforma de uma casa dos anos 1970 de Ugo di Pace.

Para criar aberturas e vistas para a área externa foi necessário dar mais sustentação à estrutura. E de modo que o gás chegasse às três lareiras que aquecem living, estar e home theater, embutidas em uma coluna cilíndrica, o chão teve de ser cortado em toda a sua extensão. Houve, ainda, a instalação de um novo sistema hidráulico e de captação de água com tanque subterrâneo. O piso no térreo, revestido de travertino, traz para dentro da casa os tons da fachada, avança na área externa com espaço gourmet e se encontra com a madeira do deque da piscina, onde o arquiteto desenhou um banco para quem quiser ficar de papo dentro da água. O que permaneceu do projeto anterior foi o pé-direito alto do living, que agora expõe o mezanino dedicado ao home theater e tem a parede do fundo coberta por fotografias de Sebastião Salgado. Restou também – agora com novo corrimão iluminado – a escada de dormentes que faz as vezes de escultura. Logo na entrada, uma longa peça de marcenaria suspensa por duas colunas parece flutuar.

É o eixo que distribui os acessos, como explica Arthur. Funciona como divisória e também serve de bufê quando faceia a sala de jantar e de café. Separado por uma chapa levemente curva de aço corten batizada de “Richard Serra” pelo arquiteto, numa alusão ao escultor americano, há um espaço menor com mesa redonda. É onde o casal brinca de casinha nos fins de semana. Algumas gavetas são geladeiras, outras guardam comidinhas. Tem micro-ondas, chaleira elétrica e máquina de fazer café. E mais uma adega de vinhos.

Em toda a residência é percebida a preocupação do profissional em atender aos hábitos dos moradores. A raia de 20 m satisfaz o gosto do casal por nadar. Fora o convidativo home theater, uma verdadeira academia de ginástica adentra o quarto principal. Dois closets – um deles com compartimento refrigerado para casacos de pele –, dois banheiros e uma suíte de hóspedes ocupam esse andar protegido da visão da rua pelas treliças verticais de eucalipto tratado. O pequeno jardim com plantas e uma linda árvore, que pode ser visto do janelão no mezanino, é de Renata Tilli.

Quase nada cobre as paredes do living. A grande mesa de jantar ovalada, com pés cônicos de concreto, é de Jorge Zalszupin. Apenas dois dos sofás são italianos. Tudo o mais, como o sofá curvo de Vladimir Kagan, poltronas, mesas de lado ou de frente e a luminária de madeira, foi garimpado em galerias de Nova York por Arthur Casas e sua cliente. Segundo o arquiteto, esta talvez seja a única casa em São Paulo com móveis modernistas americanos de autor.