Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Revista Licia
 
Novembro de 2009           |


O Bordado - Luxo de Priscas Eras

Milhares de anos antes de Cristo, o bordado surgiu e assumiu importância econômica e cultural na história da Humanidade. No dias atuais, transformou-se em símbolo de luxo e poder.

O bordado, cuja técnica de ornamentação consiste em adicionar a um tecido existente, por meio de agulhas, fios de seda, lã, algodão ou metal, uma nova superfície, é uma artesanato milenar. Segundo os arqueólogos, a agulha já era coisa conhecida quinze mil anos antes de Cristo. E mesmo que com crina de cavalo, com tendões de rena divididos para depois serem enfiados, com pedaços de pele de ovelha e cabra, já se bordava e bastante na época paleolítica superior, na velha Babilônia, no Egito dos faraós, na Grécia e na Roma antiga.
Em torno do mediterrâneo o tecido bordado funcionou como moeda de troca e também de culturas, mas foi com as invasões muçulmanas que, no ano 711, via Espanha, Andaluzia e Almeria, o bordado oriental que até hoje tanto seduz e encanta chegou a Europa onde se espalhou.
É da Dinamarca e do começo da era do bronze, uma das primeiras técnicas de bordado de que se tem notícia, a “bordure au point du feston”. Outra é aquela do bordado Altaico, velho de quatro séculos antes de Cristo, feito na Sibéria, com couro e feltro pelos nômades nos montes Altai.
Elaborados com pontos os mais diversos, poli ou monocromáticos, eram usados dentro das tumbas reais Mesmo antes dos judeus, os egípcios já eram craques na matéria. Na Europa, ao longo dos séculos e reinados, os bordados foram ganhando cara, cor, status , função e simbolismo. Na cor púrpura, vestiram Deuses, Reis e Imperadores. Na Roma antiga falava-se do fio divino que somado a pedras semi-preciosas cobriam as capas dos santos em procissões. O uso do tecido ricamente bordado nos paramentos sacros e litúrgicos acabou só fez enobrecer o bordado. Cheios de simbolismo ilustravam a fé e magnificavam a Deus. Na França ST Gall.
Desde a Idade Média, na nobreza e nos combates, o bordado se impôs como símbolo de luxo. Era o que dava ao costume e às armaduras militares um significado de classe. Somente os guerreiros nobres carregavam no peito brasões bordados nos valorosos tempos das cavalarias/cruzadas, chevalerie.
Sempre a mercê do imaginário, na Renascença o bordado serviu para a criação de verdadeiras pinturas feitas com agulha, perfeitas, superfície tão lisa quanto a de uma pintura a óleo. Em Veneza bordava-se com vidro colorido e os bordados, além de enfeitar roupas e os palácios, apareciam até na decoração das gôndolas.
Na França, no século XVII, Luis XIII tinha o seu “brodeur royal”, Alexandre Peynet que produziu os famosos ornamentos que o fervoroso monarca francês doou a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém. Embora ainda muito bíblicos, no tempo de Luis XIV, o bordado ganhou emoção e conceito. Monsieur de St Aubin , o grande mestre bordadeiro da coroa então, decretou que todo bordado tinha de estar fundamentado sobre um desenho que determinaria o equilíbrio e a harmonia da forma e sua distribuição. Nué, passé, goufrures, conchures, schinés, guipure, chenille , façonné eram termos corriqueiros na boca dos bordadeiros da corte. Embora ainda muito bíblicos, no século XVIII ganharam emoção e passaram a ilustrar a flora e a fauna e a serem usados também na decoração. O bordado sacro tornara-se tão ostentatório ao ponto da Igreja decretar que o espírito de piedade e de adoração fora sacrificado pelo luxo.
Depois de séculos onde os maiores clientes do bordado eram a Igreja e a Corte o bordado chegávamos a era do bordado profano. Deve-se ao famoso Charles Worth , o criador da alta costura no século XIX, o início de uma parceria moda/bordado que até hoje não só enfeita como entrou em cheio da alta costura. Iniciava-se a era profana do bordado, essa que até hoje segue esplendorosa, cheias de mistérios.