Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Política Externa
01 de junho de 2009
           |


À MESA COM DIPLOMACIA

"A mesa e a diplomacia brasileira - o pão e o vinho da concórdia" de Carlos Cabral.

Com pai na carreira, o diplomata Sergio Correa da Costa, e um avô político que já tinha sido Embaixador em Washington e era, quando nasci, Ministro das Relações Exteriores, o universo do Itamaraty não poderia me ser estranho. E tendo eu mesma casado com diplomata, e sido, como minha mãe, Embaixatriz em Londres, e mais tarde, como minha mãe e avó, também Embaixatriz em Washington, foi com muita curiosidade que me debrucei sobre o recém lançado livro de autoria de Carlos Cabral, a Mesa e a Diplomacia Brasileira, O pão e o vinho da concórdia.

Primeiro o fato de constatar que quem se aventurou na tentativa de resgatar este aspecto da história do Itamaraty não era um diplomata. Não me consta que, fora os manuais de serviço que tenham tido de elaborar, algum sequer tenha escolhido o assunto como tese de mestrado ou tema de livro. O que é pena, pois a meu ver, um diplomata de carreira poderia, com real conhecimento da Casa de Rio Branco, da vida nas Embaixadas e com visão portanto mais abrangente e vivência do assunto, ter melhores condições de fazer um trabalho mais coerente, coeso e de menos lacunas. Seria interessante saber porque isso até agora não ocorreu.

Acho que vem a calhar, lembrar a história a respeito de Tayllerand, que, nomeado Embaixador da França na Inglaterra em 1830, e diante da oferta do então Ministro das Relações de lhe mandar quantos diplomatas desejasse, respondeu: -“Um bom cozinheiro, Ministro, é o que lhe peço.” Sabia bem o famoso político francês, que uma boa diplomacia iria depender em muito, fora os bons vinhos e charutos, de uma mesa sempre bem posta e de um menu de seduzir estômagos, armas que os franceses sempre puderam esbanjar.

Apesar de também não constar do livro, foi justamente para um francês, o Presidente Mitterand, em 1985, um dos banquetes que mais “bolo” deu entre os muros do Palácio dos Arcos, a meu ver um dos mais belos exemplos de nossa arquitetura moderna, que por si só já seduz, senão estômagos, o olhar e os sentidos de quem ali é recepcionado. O Presidente era José Sarney e o Ministro das Relações Exteriores, o banqueiro Olavo Setúbal. Na véspera, a Embaixada da França regalara seus convidados com iguarias francesas trazidas especialmente em aviões da Air France. No dia seguinte, no Itamaraty, uma idéia que talvez fosse boa para um jantar em “petit comitê”, a de um menu com apenas pratos de peixe e regado a “champagne” de início ao fim, decididamente não funcionou para um banquete de quase duas centenas de pessoas. A moqueca com pirão, servida obviamente à francesa, em travessas ovais, embora gostosa, deixou bastante a desejar em matéria de aparência. Não deu outra. Na manhã seguinte o Presidente Sarney, incomodado pelas críticas estampadas nas manchetes do jornal O Globo, telefonou ao Ministro Setúbal reclamando, não só da comida mas também da colocação à mesa do super-poderoso Roberto Marinho. Setúbal, ao desligar, virou-se para o Embaixador Rubens Barbosa, meu marido e então chefe de seu gabinete, e disse: -“ No Itamaraty política externa não dá bolo, o que dá bolo aqui é a comida”. E completou dizendo que, pela primeira vez na vida, levara um pito.

Não deixa de ser louvável, no entanto, o interesse com que o autor de A mesa e a diplomacia brasileira se debruça, em especial sobre os antigos arquivos relacionados ao assunto. É também possível deduzir que houve boa vontade do Itamaraty em facilitar-lhe a tarefa e é pena que em matéria de informações sobre o que de fato ocorre nas embaixadas brasileiras no exterior, ele tenha ouvido apenas um chefe de cozinha, o simpático Geraldo de Brito, que nossos antecessores na Embaixada em Londres, Paulo e Lucia Flexa de Lima, haviam contratado e mais tarde demitido, e que meu marido fez regressar à Inglaterra pois o casal partira levando consigo o chefe de cozinha que o substituíu.

Com prazer, a primeira parte do livro nos leva a um passeio pelos hábitos e costumes de um Itamaraty do começo da república, alguns mesmo a ela anteriores, por meio de fotografias, imagens de cardápios ou menus, muitos ilustrados com guirlandas, desenhos da fachada do próprio Palácio, ou motivos de inspiração indígena como aquele elaborado em 1928 para um banquete em homenagem ao recém-eleito Presidente do Paraguai. É possível encontrar também no livro a fotografia do convite e menu do famoso Baile da Ilha Fiscal que, embora não tenha ocorrido no MRE, marcou época por ter sido monumental e, talvez não sem boas razões, o último do Império.

Interessante saber que em 1924, ainda nos tempos do Barão, houve um banquete no Itamaraty em homenagem ao Cardeal Joaquim Arcoverde, comemorativo do seu jubileu sacerdotal, e cujo menu, em francês como era de praxe, teve toques de humor cardinalesco : Creme Mazarin, Darne de Garoupa Cardinal, Supreme de Boeuf Richelieu e Bavarois Leon XIII. E descobrir que no belo prédio neoclássico da Rua Larga no Rio de Janeiro, em 1941, almoçou o famoso Walt Disney, em tempos de Política de Boa Vizinhança e também o quanto se gastou nesse repasto.

A falta de verba, outra constatação da leitura de A Mesa..., parece se confirmar um problema crônico. Há mesmo referencia a uma carta do Chanceler Oswaldo Aranha ao seu colega da Fazenda, Arthur de Souza Costa, solicitando que o Tesouro Nacional quitasse o debito de um almoço oferecido ao Ministro da China no Itamaraty e que teve a participação de 72 convidados.

A frase de Oswaldo Aranha, “Não é pela violência que se fazem as conquistas”, na pagina 89, é citada no livro no sentido de que ele reconheceria, como fez Tayllerand cem anos antes, que muitos assuntos de estado e entre países podem ser resolvidos em torno a uma boa mesa. Na pagina 188, há menção de que ele recebeu 40 estudantes paulistas no Restaurante do Itamaraty no Rio de Janeiro, onde geralmente almoçavam os diplomatas. E também é mencionado que foi a partir de sua gestão que os cardápios vão se alterar, “passando da gastronomia européia para algo mais popular”. Não consta do livro, no entanto, um dos momentos mais interessantes de sua gestão a frente do Itamaraty, aquele da recepção oferecida por ele no Itamaraty aos delegados estrangeiros por ocasião da terceira conferencia de Chanceleres Americanos, depois da entrada dos Estados Unidos na guerra, quando nos colocamos ao lado dos aliados, reportado em varias páginas da revista Time de janeiro de 1942 e que tem na capa o retrato de Oswaldo Aranha. Segundo a revista, o ministro americano, Sumner Wells que antes de viajar se despedira da mulher em clima de quem parte para a guerra, chegou ao Brasil acompanhado de uma delegação de 46 pessoas, e foi recebido pelo chanceler brasileiro num Itamaraty em alto astral, com cheiro de tinta fresca, um novo sistema de ar condicionado, sedas novas nas paredes e “aubussons” restaurados. No mínimo um ambiente convidativo para quem teria de mergulhar em negociações para conseguir que todos os paises do continente americano se alinhassem com os Estados Unidos e cortassem qualquer vínculo diplomático e comercial com o Eixo.

Divertidas curiosidades são também os antigos recibos de compras e de prestação de serviços feitos pelo Copacabana Palace, a Confeitaria Colombo, a Falcone e a Panificadora Manon, habituais fornecedores do Itamaraty no Rio de Janeiro, assim como os pedidos de fornecimento de louça, prataria e cristal, que até há poucas décadas eram feitos no exterior. Interessante é também constatar, através da correspondência interna ou com os fornecedores, que as broncas em relação à comida ou ao mau serviço eram passadas por escrito, e que eram comuns as queixas de autoridades, embaixadores e convidados quanto ao “placement”, ou em linguagem coloquial, à chamada “sentação”. Ficam evidenciados, embora não tratados de forma analítica, os perenes problemas com que se deparam os cerimoniais de estado. Percebe-se como é difícil tomar decisões em relação a que regras de protocolo seguir, que modelos de serviço adotar, e fica claro o que já é bastante sabido, a necessidade de se recorrer todo o tempo ao bom senso, e que nem sempre é da concórdia, a mesa do banquete.

Quando em escala menor me deparei com o problema, pois nas Embaixadas a mulher do Embaixador acaba tendo de lidar com questões de protocolo, sempre parti do principio que, até para se tomar a liberdade de eventualmente transgredir as regras, é fundamental que as tenhamos bem claras e presentes, ou que façamos consultas a quem melhor sabe.

Lembro de uma conversa entre um grupo de colegas, no dia seguinte ao aqui já citado banquete Mitterand em Brasília, quando se comentou que Roberto Marinho teria se queixado ao Presidente Sarney de seu lugar à mesa. Não sendo uma autoridade oficial, “by the book”, ou pela cartilha oficial, foi colocado em lugar de menor destaque. A conclusão a que chegamos é que se alguém tivesse tido, por exemplo, a idéia de sentá-lo ao lado da filha do Presidente, Roseana Sarney, que à época não era ainda parlamentar ou governadora, ele teria se sentido mais prestigiado e teríamos, quem sabe, evitado as manchetes negativas.

Quando Embaixatriz em Londres, onde é praxe mandar e receber cartinhas de agradecimento, em geral escritas no dia mesmo do evento, pois, céleres elas costumavam nos chegar na manhã seguinte a um jantar que oferecíamos, notei que era comum haver menção também ao “placement”. Não custava, portanto, sem desrespeitar o protocolo, pensar que fulano ou cicrano poderia ter prazer ou interesse em sentar-se ao lado de determinada pessoa.

Ainda sobre as agruras e as dificuldades em relação ao “placement”, lembro de uma história divertida, a de uma amiga, embaixatriz do Brasil na Itália nos anos 90. Para um almoço, tendo convidado várias colegas embaixatrizes estrangeiras, e mais as “principessas, duquezas e marquezas locais, que continuam a usar os seus não mais reconhecidos títulos nobiliárquicos, mas em dúvida quanto à “sentação” das nobres damas, resolveu consultar a Farnesina, o Ministério de Assuntos Estrangeiros da Itália. A resposta veio curta e imediata: -“Signora, siamo una República !” Imagino que minha amiga tenha feito a única coisa possível, criar quatro cabeceiras e priorizar as colegas estrangeiras, naquele país, ao lado de seus maridos, representando os respectivos governos.

Apesar da quantidade de documentos interessantes pesquisados e das boas intenções, o livro vai derrapando na medida em que avança e, sobretudo, quando tenta cobrir os aspectos mais recentes que ainda não viraram arquivo morto. Um capítulo inteiro é dedicado aos vinhos e, em todo o livro, com excessiva relevância, a bebida é mencionada. Há, entre os diplomatas, quem certamente saberá degustar grandes vinhos e tenha prazer em servi-los, mas nunca me pareceu que fosse esta uma prioridade na Casa, tanto que há muitos anos ali são tranquilamente servidos vinhos nacionais. Só mais tarde, descobri que o autor é um enólogo, e que tem um livro sobre o tema.

Achei graça quando dei, na pagina 229, com o capítulo intitulado Feijoada na Corte de St.James, e com a afirmação de que “Londres é a capital do vinho”. Talvez não saiba o autor do livro que a feijoada, que ele classifica como “uma grande prova da liberdade à mesa” nunca foi iguaria inusitada nas embaixadas brasileiras no exterior. Sempre me vi dizendo que comia mais feijoada na casa de diplomatas fora do país do que no Brasil. Em Londres, quando para nós cozinhava Geraldo de Brito, creio tê-la servido para estrangeiros apenas uma vez. Achei também graça em me deparar com a descrição de três menus para dois jantares e um almoço oferecidos durante a gestão de meu marido, com receitas que eu passara a Geraldo, como por exemplo a de um frango com açafrão que aprendi em viagem ao Marrocos e a de uma “tarte tatin” de banana com canela que é receita de uma amiga. O autor, que se refere a Geraldo como Gerroud, apelido que desconhecíamos, acompanha a descrição desses menus com frases como “das mãos de Gerroud saíram.....” ou “ em um almoço em 30 de setembro de 1997, Gerroud foi a guerra, servindo entrada de....”, com a adição de comentários sobre a ousadia e a adequação na escolha dos vinhos, e forçadas ilações sobre “as dimensões das mudanças pelas quais o Itamaraty passou até os dias de hoje”. O livro que se inicia bem, se perde quando abandona os arquivos e parte para análises e observações. É sobretudo nesses momentos que parece fazer falta a visão do diplomata. Ele bem saberia que não é o cozinheiro quem determina a escolha dos vinhos, ou que entre uma Embaixatriz e a cozinha, em algumas embaixadas, pode haver intermediários e que a autonomia de um “chef” pode ser bastante relativa. Sabemos todos que uma boa mesa de Embaixada sempre dependeu, sem dúvida, de chefs capacitados, mas também e muito, de patrões interessados e de menus que, não importa se mais ou menos criativos, se “fashion” ou tradicionais, se internacionais ou exóticos, vão exigir uma cozinha bem equipada como as que tive a sorte de ter, em Londres e Washington, com quartos gelados que permitem iniciar-se o preparo de uma recepção ou de um grande jantar com dias de antecedência, bons fornos e uma boa maquina de fazer sorvete.

Há o registro de que duas vezes a rainha Elizabeth da Inglaterra jantou na Embaixada do Brasil em Londres, o que de fato aconteceu, mas não na sala de jantar no térreo, como descrito no livro, mas no grande salão de recepção do primeiro andar onde é possível acomodar mais pessoas. Na primeira ocasião, uma visita de estado do Presidente Geisel a Inglaterra, quando era então embaixador Roberto Campos, consta que Elizabeth teria dito a Rainha Mãe: - “Mom, I have told you not to wear these fancy shoes”, quando a viu, descendo as escadas, tropeçar em seus sapatos de plataforma. O segundo banquete oferecido a Rainha na residência da Embaixada aconteceu por ocasião da visita de estado do Presidente Fernando Henrique a Inglaterra em dezembro de 1997. O Embaixador era meu marido e, assessorada obviamente pelos diplomatas que ali serviam, fui responsável pela organização do jantar para 74 pessoas sentadas à uma mesa com quatro extensões, e que quis decorada com muito vidro, velas boiando e, em vasos transparentes de formas e alturas diversas, com somente flores brancas e uma vegetação botânica à la Margareth Mee. No menu por nós escolhido, antes provado por um grupo de diplomatas, e executado por um importante serviço de catering local, e escrito em francês que na Inglaterra ainda é tido como a língua diplomática, constava Brandade de morue a la brunoise de lêgumes, Sorbet de betterave au caviar, Filet mignon de bouf bresilien – estávamos em plena crise da vaca louca – acompanhado de Etuvée tropicale e Purê de mandioquinha”. A sobremesa, Pommes d’amour pochés au miel em Feuillantine aux amandes foi seguida de Café du Bresil, Fruits au sucre e Chocolats Assortis.

Nunca acreditei que tivéssemos de ser exóticos ou tivéssemos de escrever um menu em tupi guarani para mostrar que nos orgulhamos do que é nosso. Uma historinha de bastidor foi o nem tão bom comportamento da Princesa Margareth, irmã da Rainha, que, antes do jantar, insistiu, sem entretanto conseguir, que a Rainha tomasse um martini, reclamou do vinho servido à mesa, que era um Chateau Gruaud –Larose de 1982 e declinou o sorbet digestivo que além do caviar vinha acompanhado de um copinho de vodka, e cuja receita, a seu pedido, me foi solicitada no dia seguinte.

Em Washington, encontrei o grande Gabriel Aubouin, que havia sido, por muitos anos, chef da Embaixada da França nos Estados Unidos e tinha sido o responsável pelo banquete de “dimensões reais” como ele gostava de contar, com todos os ingredientes, da salsinha à manteiga, vindos de Paris e oferecido pelo Presidente Giscard d’Estaing ao Presidente Gerald Ford, em 1976, em comemoração ao bi-centenário da independência americana. Depois de uma tentativa frustrada de abrir um restaurante na cidade, nossos antecessores, Paulo e Lucia Flexa de Lima, tiveram a sorte de poder contratá-lo para “chef” em nossa Embaixada. Apoiada em sua maestria e boa vontade, foi fácil inventar menus com ingredientes brasileiros, de forma refinada, estética e de agrado geral.

O autor, que não teve acesso ao universo das embaixadas brasileiras, onde a diplomacia ganha sua representação externa, e os diplomatas estão colocados na posição de bem servir ao Brasil, talvez desconheça que é mais fácil se comer bem em muitas de nossas missões no exterior do que propriamente no Itamaraty, onde uma boa mesa nem sempre foi uma característica.

Não estão registrados no livro, por exemplo, os esforços e o entusiasmo do Embaixador Wladimir Murtinho, que logo após a transferência do Itamaraty para Brasília, tentou, ao lado do arquiteto Milton Ramos, tornar funcionais os interiores do ambicioso projeto de Niemeyer. Infelizmente, jamais se conseguiu que a cozinha do Itamaraty, de grandes dimensões e bem planejada, servisse às reais necessidades do Ministério. Com a desculpa de que um “chef de cuisine” de gabarito teria de ganhar mais do que o Presidente da República – nunca foi possível fazer dela uma cozinha bem administrada e de alto nível nos moldes do Quay d’Orsay, com um corpo permanente de “chefs”, que não só atendem às necessidades do Ministério,como também treinam profissionais, aqueles que poderão vir a ser grandes chefes nas embaixadas francesas no exterior, ou terão outros empregos. Lembro que durante a gestão do Ministro Ramiro Elisio Guerreiro, foi convidado a vir ao Brasil o então já aposentado “chef” italiano Giulio Carnevale, para uma consultoria em relação as dificuldades de funcionamento da cozinha do Itamaraty. Giulio, que havia sido um chef extraordinário durante mais de sete anos na Embaixada do Brasil em Londres, foi responsável pela formação de um outro grande chef, de nome Giuseppe mas conhecido por Pepino, que trabalhou na missão brasileira junto a ONU em Nova Iorque, e foi depois, até 1985, “chef “ na embaixada em Washington. Quanto ao velho Giulio, não saberia dizer se ainda está vivo, mas posso dizer que foi responsável pela indicação de vários dos grandes chefes que passaram pela Embaixada do Brasil na Itália e onde tradicionalmente sempre se comeu muito bem.

No livro fica bem demonstrado como o nosso Ministério das Relações Exteriores, não só porque é basicamente formado por funcionários diplomáticos de carreira, mas por sua finalidade e função intrínsecas, sempre se distinguiu, e até hoje se distingue dos demais. Apesar da mudança da capital para Brasília, é o único a ser reconhecido por um nome, Itamaraty, da família do Barão de Itamaraty, que construiu para si esta grande mansão urbana entre 1851 e 54, em pleno segundo Império. Adquirido pelo primeiro governo republicano que inicialmente pretendia transforma-lo em sede da Presidência da República, daí a denominação Palácio, acabou cedido ao Ministério das Relações. Também é contado no livro, entre os muitos “faits divers” que antecedem de muito o que a geração de meus pais, a minha e a atual viveram, que o famoso Barão do Rio Branco, o terceiro Ministro das Relações Exteriores da República a exercer ali as suas funções, foi quem de fato promoveu as reformas que consolidaram o Itamaraty como um serviço diplomático de nível internacional. Ele não só ali trabalhava, como dormia no gabinete, razão pela qual o Ministério é conhecido também como A Casa de Rio Branco. Apesar de um comportamento pessoal espartano, deve-se a ele a noção de que o refinamento e o bem receber são uma extensão do cargo de Ministro e uma forma de dar brilho à política diplomática.

Dá pena portanto, observar no livro de Carlos Cabral que, acredito, apesar das falhas mencionadas, certamente interessará aos diplomatas, a foto de um solitário Ministro das Relações Exteriores de Portugal, José Sócrates, a servir-se de folhas de alface, enquanto é observado por um chefe de cozinha e um copeiro inertes, em meio a essa nova prática da casa, a de receber autoridades não mais na base de um serviço a francesa, tradicional no mundo inteiro, mas com jantares e almoços servidos em bufês. Deduzo que haja alguma razão oculta, alem da desculpa da informalidade, para a adoção de uma pratica sem dúvida bem mais desconfortável para quem é homenageado e que ao mesmo tempo é obrigado a se servir.