Maria Ignez Barbosa
 
           
Tamanho do texto: A A A
Textos e Entrevistas - Jornal do Brasil
 
22 de novembro de 1998
           « anterior |


ALTA CULTURA

Exposição em Londres sobre os 100 anos da wearable art discute uma velha questão: moda, afinal, é arte?

Addressing the Century, 100 anos de Arte e Moda, uma exposicão recém inaugurada na Hayward Gallery em Londres tráz à tona uma questão que não é nova mas que leva o assunto para os jornais e revistas: a fronteira entre a moda e a arte.
Segundo Suzy Menkes do Herald Tribune, talvez a mais respeitada jornalista de moda internacional, depois da Bienal de Florença chamada O TEMPO E A MODA e que em 96 “instalou” mostras eximiamente curadas de designers desde Emilio Pucci ao conceitual Issey Miyake, dentro de palácios e ao lado de Michelangelos e Leonardos, nunca mais o tema deixou de ser uma alternativa para os museus em busca de exposições que ganhem espaço na mídia.
Só em Londres, nos últimos quatro anos o Museu Victoria & Albert mostrou duas exposições que atraíram muito público; STREETSTYLE, sôbre a moda de rua onde os ingleses são mestres, e a restrospectiva THE CUTTING EDGE. Também o Imperial War Museum organizou uma curiosa exposição, sobre a moda durante a Segunda Guerra e o “New Look”de Christian Dior. Em Paris, a Fundacão Cartier acaba de inaugurar ISSEY MIYAKE FAZENDO COISAS e no Instituto do Costume do Museu Metropolitan em Nova Yorque será inaugurada em dezembro a exposição CUBISMO E MODA. A patrocinadora do Gala da abertura é nada menos que Miuccia Prada que em sua própria Fundacão Prada em Milão mostrou recentemente trabalhos do escultor coqueluche do momento, o indo-inglês Anish Kapoor. Este é outro fenômeno: os novos milionários da moda se transformando em colecionadores e mecenas, o que de certo modo lhes garante um espaço no circuito da arte contemporânea.
As áreas de colisão ou de “encontro” moda-arte podem ser infinitas. Difícil seria definir quando e que designers foram ou são, além de talentosos, também artistas enquanto “vestindo” mulheres e homens. Há quem reduza o pensamento a que a moda não passa dos domínios da arte aplicada. De fato, para torná-la bela e luxuosa quantos artesãos não dedicaram a vida a bordar, tricotar, recortar e a aplicar – mas a questão hoje parece ganhar nova dimensão, e a exposicão da Hayward , entre excessos e omissões, intriga e encanta. Artistas alí expostos como o famoso Christo que, em suas instalacões e desenhos embrulha monumentos e pessoas, mas nunca fêz moda, em princípio não poderiam ser considerados como tendo contribuído para a integração arte-moda, assim como também os chamados designers que fazem vestidos apenas para correr suspensos em trilhos, ou feitos de papel de seda que jamais poderiam deixar o espaço expositivo da vitrine de acrílico para vestir um corpo de mulher. Um par de sapatos mumificados em cera pode ser escultura, estar conceituando uma idéia ou fazendo algum “estatement”, mas estaria longe da fusão arte-moda alcançada por exemplo por um Paul Poiret já em 1910 ou pela ilusionista Elsa Schiaparelli nos anos trinta. Ambos convidaram artistas como Raul Dufy, Jean Cocteau e Salvador Dalí para fazer estampas de tecidos, desenhos para bordados, e assim sendo pioneiros na associação da moda com a arte. Ficaram famosos por exemplo o par de luvas pretas com unhas vermelhas de couro, o sapato com pelo de macaco e o chapéu em forma também de sapato, todas pecas surrealistas, vanguardistas, carregadas de humor e ironia mas perfeitamente usáveis, peças hoje tão disputadas por museus.
Como disse Jay Mc Inerney, o escritor do recém lançado livro “O Comportamento da Modelo” nunca a moda estêve tão na moda. A vida da editora e jornalista americana Diana Wreeland (uma espécie de Glória Kalil americana), verdadeira ditadora de moda e estilo, e conhecida por frases famosas como “o rosa-shocking é o azul marinho da India” já virou peça de teatro em Nova Yorque e Londres. A Christie’s por exemplo, realiza pelo menos seis leilões de roupa por ano. Uma coleção de vestidos drapejados de Mme Grés acaba de alí ser dispersada sob a batuta do martelo. A cadeia de TV ABC já decidíu que vai dedicar mais meia hora de seu tempo a transmissão do próximo Oscar apenas para mostrar e falar das roupas dos artistas. Na CNN o programa de Elsa Clench e o Clothes Show da SKY inglesa tem audiência de homens e mulheres aumentando a cada dia. Nomes de designers são às vêzes mais conhecidos do que seus próprios modelos. Alguns como Alexander McQueen e Husseyn Chalayan se pretendem laboratoristas, fazendo “alta cultura”, ou “high art” e, como tantos outros, transformam seus desfiles em performances que chamam atenção no mundo inteiro.
O acervo da National Portrait Gallery de Londres, museu que abriga os mais famosos retratos de todos os reis, rainhas, princípes e princesas do Império Britânico vem sendo enriquecido velozmente com obras de fotógrafos famosos. Não se discute mais: fotografia é arte e o fato é que é raro um fotógrafo consagrado não ter estado ou estar envolvido direta ou indiretamente com moda, seja ela de rua ou não. Hoje, uma foto de Cecil Beaton, Irving Penn, Norman Parkinson ou David Bailey pode valer fortunas. Sem falar no que vale o pai de todos , Man Ray, o artista Ready-Made que tendo usado a fotografia como expressão criadora e tendo trabalhado com o fabuloso designer Paul Poiret no começo do século, muito ajudou nessa aproximação arte-moda durante o surrealismo.
A exposição da Hayward nos remete logo de início a esse período de encantamento. Em vitrines verticais lembrando sarcófagos à meia luz para proteger os tecidos de descolorar, e numa teatral instalação arquitetônica de Zaha Hadid, jazem preciosidades. Alí se pode ver o costume desenhado por Matisse em 1920 para o O Canto do Rouxinol, uma coreografia de Diaghilev para os famosos ” Ballets Russes”. Um campo onde a relação arte-moda teve grandes momentos, foi justamente o do teatro e da dança. Fernand Léger em Paris, Oskar Schlemmer na Alemanha e os construtivistas russos puderam, através dessas áreas de expressão, colocar suas teorias artísticas em prática. Os costumes de Schlemmer para o Balé Triádico em 1922, por exemplo, feitos com metal, tecido e arame, transformavam os atores em verdadeiras figuras abstratas em movimento.
Também pairando tal qual uma relíquia, o famoso vestido “ Delphos” , de 1910, de autoria do veneziano Fortuny que esculpia o corpo das mulheres com suas legendárias sedas plissadas, em tempo bem anterior ao do poliéster. Seus vestidos intemporais e que ainda hoje se mantém impecavelmente plissados, valem fortunas e continuam a ser usados. Quem viu recentemente o filme The Wings of the Dove com Helena Bonham-Carter, talvez se lembre do divino vestido branco usado pela jovem americana em seu Palácio veneziano. Tratava-se de um Fortuny.
Outro impacto é dar de cara com o conhecido retrato de Johana Staube, pintado por Gustav Klimt em 1917 e logo ao lado a blusa usada por ela enquanto pousava para o pintor, estampada em azuis pela artista Marta Alber. Casado com uma designer e vivendo em plena efervescência da Escola de Viena a roupa de suas retratadas sempre foi uma preocupação do pintor.
Dessa época tão criativa e de tantos talentos, temos ainda o famoso e fabuloso Paul Poiret, o primeiro a colocar explicitamente que os costureiros deveriam ser mais do que apenas excelentes artesãos. Dele é a frase: -“Estaria eu louco quando tento colocar arte em meus vestidos ,ou quando digo que a costura é uma arte?” A própria mulher foi sua principal modelo, a vida inteira vestindo sua obra, seus turbantes, a roupa solta, libertada dos corpetes cheios de barbatanas do século 19. Poiret vestiu não só as mulheres da sociedade e das cortes européias, mas também artistas como Isadora Duncan. Atravessou o Atlântico para mostrar seus vestidos e fazer palestras nos Estados Unidos, onde, alguns anos depois, os americanos iriam se deixar estasiar com o “shocking pink”de Elsa Schiaparelli. Yves Saint Laurent, outro apaixonado pela cor, nunca escondeu sua admiração pela designer surrealista que era capaz de inventar botões em forma de legumes e que tanta sensação causou com seu suéter de tricô com laço em “trompe l`oeil”.
Nessa época a moda não mudava a cada seis meses; mudavam apenas as estações. Poiret, depois de vinte anos de sucesso, entre a guerra e a falência, saíu de moda no momento em que lançava talvez a sua mais bela série de vestidos. Nessa altura ele já tinha criado uma escola de design e frequentava o atelier do amigo Joseph Hoffmann, o famoso mestre dos móveis, tapetes e objetos Art Deco. E que hoje, mais na moda não poderiam estar.
Artistas ou não, o fato é que os designers contemporâneos estão cada vez mais desinibidos e facilmente extrapolam a fronteira da própria atividade. Miuccia Prada, uma das designers hoje mais capazes de levar a moda aos seus limites extremos, parece ter a questo bem presente: - “A minha profissão é moda. Quando sinto que entro muito numa de artista, dou uma parada e me volto para as minhas raízes”.