Maria Ignez Barbosa
 
           
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Textos e Entrevistas - Jornal do Brasil
07 de março de 1999
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O REALISMO NEURÓTICO CHOCA E CONSAGRA

Jovens artistas ingleses escandalizam público e fazem fama e fortuna.

Eles são todos diplomados pelas melhores escolas de arte da Inglaterra,como a St Martin ou a Goldsmith . Daí o espanto. Alternativos sim - e porque não? Sem medo de parecer arte de mau gosto, aquela que atrai a atenção para os autores, partiram determinados nessa direção. Sem espaços oficiais, fora o próprio show anual dos formandos, que se realiza nas próprias escolas e que mais e mais chama a atenção da mídia, alguns se reuniam no estúdio do que tinha mais espaço e tratavam de fazer a curadoria de suas próprias obras e de atrair a atenção da crítica e eventuais compradores.
Sorte a deles que o milionário e colecionador Charles Saatchi, que com seu irmão Maurice é dono da Saatchi&Saatchi, a maior empresa de marketing da Inglaterra, resolveu não só comprá-los regularmente como expô-los num dos espaços públicos mais visitados de Londres que é a sua Saatchi Gallery, fundada há menos de uma década e que só expõe americanos ou ingleses de ultima safra.
Estar na coleção de Charles Saatchi já é algum caminho andado. E o apogeu que até agora alguns deles já alcançaram foi ter feito parte da exposição SENSATION , que mostrou 110 obras que o mecenas vem colecionando desde l988 na sacrosanta Royal Academy of Arts, o templo do academicismo, onde o famoso Turner se formou e onde inaugura esta semana em Londres uma grande exposição de Monet . Alí , num espaço certamente não alternativo, o tubarão no formol de Damien Hirst , a cabeça congelada esculpida com seu próprio sangue de Marc Quinn e o retrato da mais famosa presidiária inglesa, a assassina de criancinhas Myra Hindley, de Marcus Harvey, causaram não só enormes demonstrações de protestos e o esperado choque, como também filas que dobravam o quarteirão em Piccadily.
Assim, apesar das controvérsias, mas tendo batizado sua coleção num espaco tão tradicional, Charles Saatchi, que já virou sinônimo da YBA (Young British Art) conseguiu que a maioria desses artistas pulasse a cerca e passasse de alternativo a consagrado. Vários já vinham ganhando prêmios como o anual Turner Prize da Tate Gallery, escolhas que segundo os ingleses mais conservadores fariam o famoso pintor falecido revirar-se no túmulo. Muitos já estão expondo em galerias comerciais e dois recentes leilões, na Christies e na Sotheby’s, serviram para confirmar seus preços em níveis estratosféricos.
Agora, às vésperas de uma nova década e do novo milênio, e já se sentindo a preocupação sobre como então será enfocada a arte, Charles Saatchi causa nova sensação no cenário londrino, apresentando um grupo de cinco artistas com maneiras de trabalhar bem distintas, mas que comungam das mesmas inquietações, mostrando como na Inglaterra a arte não parou, nos últimos anos, de inovar e se reinventar. É o Realismo Neurótico. Até um livro já existe sobre o tema e que pode ser encontrado à venda no local ou em qualquer livraria. Não importa que seja escultura, fotografia ou pintura, o fato é que essa arte parece estar podendo entreter e divertir o público enquanto que seus autores parecem estar sofrida e seriamente tentando refletir suas angústias e preocupações com o mundo.
Martin Maloney, um dos cinco, faz uma figuração leve, de forma divertida e propositalmente pintando mal. Brinca misturando Picasso com Hockney, e fundindo todos os grandes momentos da pintura na história da arte. Steven Gontarsky, nascido nos Estados Unidos mas radicado em Londres, costura em plástico suas esculturas e se diz inspirado em sexo, juventude e atitudes. Suas figuras parecem estar celebrando uma orgia e tem uma aparência mórbida e perversa: - “Estou muito numa de pornografia”, confessa tranquilamente. Paul Smith, que já passou por uma experiência no exército, transforma, com suas fotografias e com a ajuda do computador, fatos em ficção num estilo pseudo-documentário que poderia lembrar Frank Capa. Todos os personagens de suas fotos tem uma mesma cara, a sua própria. Nela, pavor e conflito. Apesar de suas fotografias já estarem muito procuradas, o artista segue dando aulas e prevê para o futuro uma grande pobreza. Brian Cyril Griffiths meio que te leva a um mundo de faz de contas, ao mundo do Star Trek. Com papelão, fita colante e qualquer objeto doméstico de plástico ou o que seja, cria verdadeiras centrais e painéis de controle” high tech”. A única mulher do grupo, Tomoko Takahashi, é a que ocupa maior espaço, faz mais barulho e também uma certa sujeira. Para realizar seu trabalho, passou semanas a cata de “junk” e de “rubish”, ou seja, em bom português um monte de lixo e velharias destituídas de qualquer aparente serventia. No meio de uma enorme confusão ordenada e interligada por fios, luzes e estranhos sons pode-se passar horas tentando entender e tomando cuidado para não tropeçar em algum dos cacarecos.
Estando em Londres não deixe de fazer este programa alternativo. A mostra inaugurou dia 14 de janeiro e vai até 4 de abril. A Saatchi Gallery fica em 98A Boundary Road, NW8 no bairro de St John Wood. Vale o passeio, nem que seja para visitar a única obra permanente da Galeria que é o fabuloso tanque de óleo do artista Richard Wilson, a mais importante peca da coleção .