Maria Ignez Barbosa
 
           
 
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Na Imprensa
02 de maio de 2007 « anterior | próximo »


ENCONTROS COM GENTE GRANDE

Perfís de Maria Ignês Barbosa - por Jorge da Cunha Lima

A jovem reporter do Jornal do Brasil, com 23 anos, era bonita e tinha pedigrée. Filha de embaixador ilustre, Sérgio correa da Costa, neta de Oswaldo Aranha, culta de nascença, o que facilita as coisas, tinha entrada onde quizesse. E entrava. Isso era fácil, entrar. Difícil era sair com o rasto luminoso das entrevistas que fez com algumas das mais interessantes personalidades deste país.

O livro é nformativo, mas com sutilezas, agradável, mas sem render-se ao verbo agradar. As entrevistas desnudam, mas sempre deixando os personagens com seus melhores hábitos.

Sua entrevista com o mais belo e mais difícil de nossos poetas, o João Cabral de Melo Neto, é uma pequena obra prima. O poeta solta-se de todos os humores consolidados de um homem de 48 anos, com 9.400 versos arquitetados, conforme informação de Maria Ignez, para falar da vida, sua vida, e a arte de escrever, arte em que sua vida acabou se transformando.

É difícil defender só com palavras a vida? pergunta.
A palavra dá consciência, mas o que faz mesmo é a enxada. responde.

Agripino Grieco, para recebê-la, veste um terno, pois só andava de pijama na casa do Meyer. Debulha todo o seu sarcasmo e suas ironias. Mas é um doce homem. Um poeta imigrante. Sua sabedoria transpira dos 58 mil volumes de sua biblioteca espalhada até pelos banheiros. Agripino Grieco achou melhor não falar da morte: ³Não proferir esta palavra. Aguentá-la na hora adequada e não antecipar a emoção, de medo ou de falsa coragem².

Gentíssima prossegue. De Pixinguinha ao escultor Henry Moore. Sempre adorei mãos. Depois do rosto, são a parte do corpo mais apta a expressar emoções. Nara Leão, feliz mas não completamente.
A única entrevista que não gostei foi a de Wilma Guimarães Rosa. Não por culpa da jornalista, mas porque tudo o que a entrevistada dizia parecia falso. Inventava frases, como seu pai, mas sem qualquer sentido, porque ela não era seu pai.
Já o capítulo da morte do próprio Guimarães Rosa é um primor. Ser interessante é mais bonito do que ter beleza. Imortal é o que é sofrido e espírito; tudo, abaixo daí é póstumo.
Um livro necessário sobre essa gente incrível que transitava pelo Rio, como dádivas perdidas, no achado e glorioso ano: 1968.