Maria Ignez Barbosa
 
           
 
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Na Imprensa
 
17 de maio de 2007 « anterior | próximo »


ENTREVISTA COM MARIA IGNEZ BARBOSA SOBRE O LIVRO GENTÍSSIMA

Marcelo Tas - Bate-papo UOL

O Bate-papo UOL recebeu a jornalista Maria Ignez Corrêa da Costa Barbosa para uma conversa comandada pelo jornalista Marcelo Tas sobre o relançamento de seu livro "Gentíssima", originalmente publicado em 1968.

"Gentíssima" reúne as principais entrevistas que a escritora fez com intelectuais, artistas e políticos como Salvador Dalí, Juscelino Kubitschek, João Cabral de Melo Neto e outras importantes figuras do Brasil e do mundo.

Entre as histórias contidas nessa nova edição do livro, Maria Ignez Barbosa destaca a "não-entrevista" com Guimarães Rosa, publicada após sua morte.
"Ele foi o mais difícil porque não gostava de ser entrevistado. Quando ele morreu, me senti impulsionada a sentar e escrever minha lembraça dessa 'não-entrevista'".

Tas: VARIAS EDITORIAS DO LIVRO. Quem ficou mais tempo enrolando para te conceder a entrevista. Guimarães Rosa?

Maria Ignez Barbosa: Eu acho que seria o Guimarães Rosa sim. Porque ele não gostava de ser entrevistado. Me tirou o gravador da mão. E ele não quis. Então eu não publiquei a entrevista dele, só na hora que ele morreu que eu fiz uma lembrança da não-entrevista. Aí eu me senti impulsionada a sentar e escrever. Ele acabou ficando o meu amigo. Ele era uma gracinha. Me deu o tema do discurso dele para posse na Academia. E eu me emocionei muito quando ele morreu. O discurso ela todo premonitório e ele adiava e adiava. Acho que ele tinha medo. Era diplomata e depois embaixador, mas nunca deixou de escrever. Assim como o João Cabral fez a carreira toda e virou embaixador. Um dia ao telefone eu disse alô e ele falou assim: "não diz beijinhos?". E aconteceu, porque ele fez o discurso e tomou posse com o uniforme da Academia em uma noite linda e em seguida... Ele fala muito da morte no discurso. Ele adiava porque era uma tal emoção a posse. E ele era muito vaidoso.

Tas: Como evitar que as entrevistas se transformem em máquinas de fazer mal-entendidos, como dizia o poeta João Cabral?

Maria Ignez Barbosa: Sobre o João Cabral, no próprio edifício tinha plantas na cobertura, tinha pés de cana. Era como um quintal. Isso foi em 67. No Rio de Janeiro você vê tudo que está no morro, tudo o que faz parte da vista. Sobre Barcelona, ele era cônsul geral nesta época. E foi quando eu casei. Eu e meu marido em lua-de-mel passamos por Barcelona. Eu já o conhecia inclusive tinha feito o prefácio de meu livro. E ele passou o dia inteiro com a gente mostrando Barcelona. Foi um amor, passou o dia inteiro com a gente. Vimos a coisas do Gaudi e Picasso. Ele adorava aqueles bailes flamencos. Foi uma delícia.

Maria Ignez Barbosa: Como eu falo na introdução do livro, sempre antes de entrevistar alguém eu dava uma passada no setor de pesquisa do jornal (que era chefiado pelo Fernando Gabeira) e ia preparada. Então eu sabia se eles haviam dito algo uns anos antes. Isso já conquistava.

Tas: Técnica de entrevistadora: gravava? Anotava? Trazia perguntas prontas?

Maria Ignez Barbosa: Sobre as técnicas de entrevista, eu não me dava bem com gravador. Eu tive experiências de gravar e perder tudo. Eram pesados. Eu acabo escrevendo rápido e é muito da observação. Mas acho que consegui ser bem fiel às frases que as pessoas diziam. E uso bem a percepção, a descrição, a observação.

Maria Ignez Barbosa: O que eu queria fazer era mais um retrato da pessoa. Eu ouvia muito a Mariana falar que fazia perguntas agressivas. E eu achava que deveria ser de outra maneira. Também nas entrevistas eu aprendia muito sobre o ser humano.

Tas: Das personalidades que você entrevistou, o mais maluco com certeza me parece o Salvador Dali, confere? Ele tentou algum tipo de assédio ou galanteio?

Maria Ignez Barbosa: Sobre o Salvador Dali, ele não estava tão velho quando eu o entrevistei. Eu liguei para o hotel, sabendo que ele sempre se hospedava naquele lugar. E ele marcou querendo que eu voltasse no outro dia. Ele estava sempre rodeado de pessoas. E invertia e fazia perguntas para mim. Sobre os galanteios, mais ou menos, um pouquinho. Mas você vai levando. Ele era meio curioso. E muito vaidoso. Era sempre muito original com aquele cabelo e bigode. Uma vez em Veneza, ele estava na sacadinha no teatro, jogando tinta para tudo o quanto era lado. Era um show, ia ter uma peça ou alguma coisa. Mas acho que ele estava só se exibindo. Eu vi aquela figura e me impressionou muito. Então eu o vi no hotel e fui tentar a minha sorte.

Pollengo: Quais são as grandes dicas para ser um grande entrevistador?

Maria Ignez Barbosa: pollengo, acho que tem que respeitar a pessoa. Tem que estar interessado na pessoa e ter curiosidade. Vontade de aprender com ela. Ter um certo encantamento com a pessoa que se vai entrevistar. De regra tem que procurar conhecer um pouco antes para não ficar perguntando bobagens ou coisas muito gerais. Sobre o Castelinho, eu nunca entrevistei usando a técnica de entrevistar como um inimigo. Eu pude entrevistá-lo depois e adorava o Castelinho e admirava a sua coluna.

Analu: Maria Ignez, como foi entrevistar o Juscelino?

Maria Ignez Barbosa: analu, eu adorei, mas foi um pouco triste, pois ele estava meio deprimido. Ele tinha passado pela presidência e pelo exílio. Foi um pouco melancólico também. Mas foi muito agradável. Ele é muito delicado e gente fina.

Clar: de todos os personagens que vc entrevistou, qual deles você era muito fã e como foi a entrevista para vc se controlar?

Maria Ignez Barbosa: clar, taí uma pergunta que me afeta. Eu era fã do Tom Stopper, um ator maravilho. E dos brasileiros tem o João Cabral. Com o Vinícius eu também adorei. Para mim era igual entrevistar. Desde que a pessoa fosse interessante. Eu tinha duas empregadas domésticas. Eu adorei entrevistar a Lygia Clark também. Era uma pessoa muito complexa.

Maria Ignez Barbosa: Sobre o Barão de Itararé, eu fui na casa dele no Catete e ele estava de barba. E o apartamento era cheio de formigas e jornais na copa. Ele tratava as formigas, não tinha medo de nada. Elas se proliferavam ali e ele adorava aquilo.

Maria Ignez Barbosa: Sobre o Sérgio Porto, é uma das entrevistas que eu gosto mais no livro. Foi na casa dele onde sempre estava o alfaiate, os jornais pelo chão. Ele resolvendo coisas. E foi bem legal, gostei muito de entrevistá-lo também. Você sentia uma pessoa talentosa, dona do seu pedaço. Era muito presente no Rio de Janeiro naquela época. Depois eu perdi contato. Eu casei e fui morar na Inglaterra. Por isso que estou feliz de ter o livro de novo. Teve uma crítica muito boa naquela época. Mas daí a editora faliu e eu não tinha o livro para dar para os amigos.

Paulo: Teve alguma declaração que você conseguiu porque o entrevistado se abriu demais e você não teve coragem de publicar, ou ainda alguém pediu para que você não publicasse determinada parte? Por falar nisso, o que vc achou o Roberto Carlos ganhar o processo que proíbe a sua biografia? ´(a última parte é só uma curiosidade)

Maria Ignez Barbosa: paulo, não teve nada. Eu chegava e começava um papinho e depois as pessoas acabavam confiantes. Não lembro de nada de alguém que tenha pedido para não fazer. Tem pessoas que às vezes eu descrevia e pensava que a pessoa não fosse gostar muito. E no dia seguinte a pessoa telefonava para agradecer. Sobre o Roberto Carlos, achei aquilo meio triste. Uma pessoa bacana que eu sempre gostei muito. Mas fiquei meio decepcionada. Inclusive li este livro. Primeiro acho que não se esconde uma coisa dessas. Depois não tinha nada demais. E acho que não se faz isso. É um livro simpático, ótimo.

David: Escritores são seres bem complexos... como abordá-los em entrevistas?

Maria Ignez Barbosa: David, eu acho que se a gente chegar mostrando que a gente leu alguma coisa deles e conhece as frases deles, eles logo adoram. E tem uma coisa do Agripino que era crítico, queimava livros. E vai depender do entrevistado se a entrevista vai ser legal ou não. O Manabu Mabe estava no Rio quando eu o entrevistei. Ele fala com sotaque e eu o coloquei falando com sotaque na entrevista. Acho interessante que a pessoa veja o retrato neste sentido.

Maria Ignez Barbosa: Tem uma história com o Rubem Braga que é engraçada. Em que as pessoas ficam amigas. Eu fiquei noiva em seguida, estava namorando o meu marido que se chama Rubens também. Eu estava na casa da minha tia e falei para a empregada que se o Rubens Barbosa (meu marido) me ligasse poderia dar o telefone do cabelereiro. Aí eu estava lá e o Rubens Braga me ligou.

Curioso: Qual foi a primeira pessoa que você entrevistou?

Maria Ignez Barbosa: Curioso, eu tenho uma entrevistinha com o Nelson Freire no Correio da Manhã. Pianista, jovenzinho. Foi uma das primeiras pessoas que entrevistei.

Paulo: O que esta edição traz de diferente da primeira e por que tanto tempo para reeditá-lo?

Maria Ignez Barbosa: Paulo, são mais três entrevistas que eu fiz no mesmo período logo depois que o livro foi lançado. Com o Érico Veríssimo, a Lygia Clark e com o Barão de Itararé. Eu fiz agora uma introdução. Isso demorou porque eu não pensava no assunto. Eu casei e mudei para o exterior e minha vida mudou. Voltamos para o Brasil faz três anos. Naquela época fiz entrevista em Brasília com o chefe da polícia federal. Com o Rogério Nunes que censurava todos os filmes. Na época do Médici. Fiz muita coisa depois que não entrou neste livro porque tem toda uma época do Rio, um período. Depois eu trabalhei, mas em períodos que interrompia, pois tinha que viajar ou fazer outras coisas. Trabalhei no Jornal de Brasília e fiz algumas matérias em Londres.

Ana Paula: Maria Ignez, parabéns pelo livro. Por que vc não continuou entrevistadora?

Maria Ignez Barbosa: Ana Paula, agora eu escrevo no Estadão. Eu estou fazendo alguma coisa sobre design e decoração. Estou voltando a entrevitar pessoas. Acabei de entrevistar a artista plástica Tomie Ohtake que vai sair agora.

Ana Paula: Qual critério você usou para selecionar os personagens presentes na obra que, como você mesma disse, vai de empregada doméstica a presidente? Você pretende dar continuidade ao "Gentíssima". Talvez um volume 2?

Maria Ignez Barbosa: Ana Paula, na época em que me procuraram para fazer o livro foi para fazer reportagens minhas. Mas conversando com os editores comentei que a matéria poderia perder muitas oportunidades, pois seria melhor personalidades. Foi um período pequeno em que fiz muitas entrevistas. Eu tenho vontade de escrever outras coisas e estou pretendendofazer. Mas não sei se farei um volume II de entrevistas.

Paul: O que ter vivido fora do Brasil colaborou para sua obra, se é que colaborou de alguma maneira?

Maria Ignez Barbosa: Paul, ter vivido fora me abriu horizontes e mesmo sem estar entrevistando ou escrevendo sobre as pessoas eu tive contato e conheci muitas pessoas. A própria atividade de entrevistar pessoas me abria muito para aprender. Era como estar lendo um livro. Eu sempre gostei muito de gente e sempre achei se aprende observando. O jornalismo me ajudou a olhar assim. E em algumas épocas ia fazer formação em psicanálise. Acho que uma coisa ajuda com a outra. Uma sensibilidade para o ser humano.

Tas: Realiza seu desejo de criança: morar em definitivo no Brasil. Por que mesmo morando em lugares tão bacanas, ficou esse desejo de voltar?

Maria Ignez Barbosa: Sobre o meu sonho de voltar a morar no Brasil, eu adorei a minha vida fora também. Quando criança, o meu pai era diplomata, e eu tinha que ficar mudando de casa, amigos etc. O meu sonho era ficar aqui e ter amigos e estudar no Brasil, pois eu era obrigada a estudar fora. E eu voltei, quando o meu pai era embaixador no Canadá. E ele deixou eu e minha irmã voltar para o Brasil para estudar. E jurei que não ia casar com diplomada. Mas estou adorando morar aqui de novo em São Paulo.

Marcos: Você já entrevistou alguem que mal respondia , e como você lidou com essa situação?

Maria Ignez Barbosa: Marcos, eu já conheci pessoas lá fora assim. Teve um escritor inglês que só respondia só sim e não. Mas graças a Deus eu não estava entrevistando ele.

Gil: você é inteligente e correta. acha que ser assim te ajudou a ser a jornalista que você é?

Maria Ignez Barbosa: Gil, eu agradeço o elogio. Mas acho que a gente tem que ser correta mesmo e respeitar o que as pessoas dizem. Não inventar e nem chutar. Eu não me sentiria bem fazendo isso.

Aline: Olá, Maria Ignez. Parabéns pelo livro! Adorei o "Depoimento de Maria X".

Maria Ignez Barbosa: Aline, então você leu o livro. A Maria X era a lavadeira. E era uma pessoa interessante, pois era bem do povo, bem do Brasil. Que inclusive responde um pouco deste problema. Como o papa veio e soltou os dogmas. E todo mundo reagindo com a razão e emoção. Ela na entrevista resolve tudo. É católica. Tem um filho sem casar. E tem a Virgem Maria que gosta. E acho que cada um vai vivendo como pode. É uma pessoa muito bonita. Em que Mesmo com enormes dificuldades tem uma atitude muito positiva. Ela trabalhou para um oculista e ela tinha um problema de olhos. E ele nunca parou para olhar para os olhos dela. E ela o perdoa. Ele era uma pessoa muito ocupada.

Paul: Maria Ignez, qual a intenção em passar a história de uma lavadeira?

Maria Ignez Barbosa: Paul, a intenção é o ser humano, a riqueza das pessoas. Uma pessoa de qualquer nível social tem o que dizer, tem uma vida, uma história. Pode ser tão rica quanto qualquer outra pessoa ou mais rica que qualquer pessoa famosa. É um ser humano.

Lurde: Maria Ignez, quem vc tem vontade de entrevistar que ainda não teve oportunidade?

Maria Ignez Barbosa: lurde, é tanta gente. Eu gostaria de entevistar o Dom Odilo Scherer porque acho que ele está na pauta. Tem muita gente, não é tanto assim. Tem surpresas, há pessoas que você acha que vai ser fabulosa e não são ou acha que não está dando nada e acha tanta coisa.

Maria paula: Boa noita, Maria Ignez. O que os entrevistados acharam do seu livro? (só esclarecendo, é sobre a primeira edição que pergunto)

Maria Ignez Barbosa: Maria Paula, eu tenho cartinha de João Cabral, Érico Veríssimo. A maioria ficava contente. O Di Cavalcanti me mandou um bilhetinho. A Elizete Cardoso me mandou flores. Entrevistei outras pessoas como o Paulinho da Viola.

Maria Ignez Barbosa: Estive dando autógrafos na Livraria da Vila estou programando o lançamento no Rio de Janeiro, mas vai ser em breve, no começo de junho. Obrigado a todos.