Maria Ignez Barbosa
 
           
 
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Na Imprensa
14 de abril de 2007 « anterior |


GENTE QUE FALA

Fabio de Souza Andrade

Em mãos habilidosas, a arte da entrevista resiste ao tempo, como prova a reedição de "Gentíssima"

Entre uma desejada intimidade, ainda que vicária, com um desconhecido, próximo ou distante, ídolo ou não, e uma potencial "máquina de fazer mal-entendidos" (João Cabral), a sedução da entrevista assume múltiplas formas, todas difíceis de ignorar. Mesmo em toscos "três por quatro" verbais, há brechas para ironia defensiva, sinceridade desarmada ou cabotinismo revelador. Vejam se não é o caso destes "Traços de Identidade", de Jorge de Lima, na "Folha da Manhã", em 1952, e o clássico "Auto-Retrato de Graciliano Ramos aos 56 Anos" por iniciativa de João Condé, de 1948. "Altura: 1 metro e 68 centímetros. Peso: 59 quilos e meio. Colarinho: 37. Usa óculos. Grisalho, meio careca, meio surdo. Não precisa dizer que sua vista é cansadíssima. É católico praticante. Seu santo: são Jorge, padroeiro da Inglaterra e santo da macumba. Veste sempre cinza. Adora o mar. Gosta muito de crianças.

Sente muitas saudades de seus vizinhos de província." Na economia do inventário, as matrizes da poesia do autor dos "Poemas Negros" insinuam-se, melífluas.

"Nasceu em Quebrangulo, Alagoas. Casado duas vezes, tem sete filhos. Prefere não andar. Não gosta de vizinhos. É ateu, indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças. Gosta de palavrões escritos e falados. Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo. Esteve preso duas vezes. É-lhe indiferente estar preso ou solto. Escreve à mão. Espera morrer com 57 anos." Aqui, a dureza quase ríspida, pouco concessiva, de Graciliano se humaniza no humor cortante. Ingênua ou não, em mãos habilidosas, a arte da entrevista resiste ao tempo, como prova a reedição de "Gentíssima", de Maria Ignez da Costa Barbosa. São 28 depoimentos publicados no "Jornal do Brasil", em fins dos anos 60, que valem pelo tino da entrevistadora em capturar um Brasil cujo fio se rompeu.

A linguagem escorreita, a prontidão e pertinência da presença discreta, mas ativa da entrevistadora fundem traços essenciais dos personagens às circunstâncias de um encontro: João Cabral na cobertura do amigo Rubem Braga, provocado por sua ironia; um Pixinguinha aniversariante que troca a homenagem oficial pela companhia de Donga e João da Baiana, no botequim; um Agripino Grieco amargo como picles, conservado entre livros; Salvador Dalí em exposição pública, cioso dos olhares, num bar nova-iorquino. As quatro seções, "Literária" (nomes como Guimarães Rosa, Erico Verissimo), "Colorida" (Manabu Mabe, Di Cavalcanti, Henry Moore), "Sonante" (Elizete Cardoso, Monsueto) e "Tropical" (em que um ex-presidente se junta a anônimos, cariocas), abrem janelas para mundos singulares mas também para uma época: Nara Leão, Lígia Clark e Marina Colasanti falam como contemporâneas da revolução sexual, Juscelino Kubitschek, na sombra política, Edu Lobo, Vinicius de Moraes e Gilberto Gil, na crista da onda. As vistas valem a leitura.